Assessores e corrupção: um apelo para irmos além

Humberto Dantas

03 de maio de 2021 | 10h15

*Texto de autoria de Marina Cano, sócia da Legisla Brasil, uma sociedade sem fins lucrativos que acredita no poder das pessoas em transformar a política.

 

Mais uma manchete sobre rachadinha. A história se repete e o sobrenome também. Às vezes, parece até difícil acompanhar o fluxo de escândalos em investigação no legislativo brasileiro. Mas tentando resumir bem a novidade da semana: descobrimos que a laranja pode não ter caído muito longe da árvore – com ênfase no “pode”, dado que o processo consta em andamento.

O sigilo quebrado para a investigação contra o senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), levou o Ministério Público a encontrar alguns funcionários que também trabalharam para Jair Bolsonaro (quando deputado federal) e apresentaram comportamentos suspeitos com relação ao recebimento de seus salários: levantando mais uma vez suspeitas de rachadinhas no gabinete. Para quem também se perde em tanto jargão da corrupção, rachadinha é o ato do assessor de repartir o salário recebido para outros fins; compartilhando com o próprio político ou outro ator de interesse duvidoso.

Introduções feitas, vamos ao que importa: esse texto não tem pretensão de provar lado A ou B e embarcar na polarização para nos desviar de fatos; ninguém deveria ser a favor ou contra a corrupção. A corrupção não é algo para se ter lado, mas, sim, um conceito universal: não ultrapassar os limites de interesse público para defesa de privados é o que nos permite avançar como sociedade. E, ao que parece, até isso nós brasileiros conseguimos polarizar – mostrando que nem sempre nossa criatividade vem para somar.

Esse texto é um apelo. Como sociedade, ainda estamos pedindo o básico para os parlamentares e seus gabinetes: que usem a máquina pública para entregarem o trabalho para o qual foram eleitos. E não para usarem da própria estrutura (seus gabinetes e afins) para manutenção no poder ou desvios de função. E não é  à toa que no imaginário popular o assessor seja sempre uma figura corrupta. É aquilo que mais aparece aos olhos do cidadão e está vinculado ao pedido mais básico que uma sociedade poderia fazer aos seus representantes e servidores.

O meu apelo então é para que a gente busque enxergar os assessores além desta visão rasa. Que a gente busque cobrá-los por todo o valor que sabemos que são capazes de entregar a nós cidadãos. Que os profissionais de diferentes setores almejem também ocupar esse espaço de construção do futuro do nosso país. Que a gente não se prenda na pequenez que por vezes fazem da política brasileira, mas consiga sonhar grande e longe. Porque, se a profissão que constrói o futuro do nosso país está com uma régua do século passado, como vamos caminhar para frente?

Uma coisa sabemos: são os assessores, essas “figuras corruptas” que vão seguir com a política em suas mãos para regulamentar nossas vidas. Depende de nós, cidadãos, mudar esse jogo. O meu apelo conversa com o seu?

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