As manifestações do dia 2 de outubro e os equívocos das análises sobre as estratégias eleitorais de 2022

Carolina de Paula

05 de outubro de 2021 | 19h06

No último sábado (2/10) manifestantes do campo progressista foram às ruas em 94 cidades do país para protestar contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Independentemente do volume de adesão – aparentemente menor do que a expectativa inicial dos principais organizadores – e sem a presença do ex-presidente Lula, líder isolado das pesquisas de intenção de voto para o pleito do ano que vem, o evento despertou na mídia a discussão relativa à impossibilidade da união da oposição, ou mais especificamente, da “união da esquerda”. O estopim para o diagnóstico trata-se da agressão sofrida pelo pré-candidato ao Planalto em 2022, Ciro Gomes (PDT), enquanto discursava na Avenida Paulista, em São Paulo.

O episódio é injustificável sob qualquer ângulo. Porém, há uma série de equívocos analíticos em algumas derivações de estratégias eleitorais desse lamentável acontecimento. Parece óbvio, mas é sempre bom lembrar que os partidos políticos no Brasil disputam eleições concomitantes para o Executivo Federal e Estadual, além, é claro, dos pleitos ao Legislativo (Congresso e Assembleias Estaduais). Também vale lembrar que o grosso do financiamento de campanha é baseado justamente no número de deputados eleitos pelos partidos para a Câmara dos Deputados. E, por fim, mais uma lembrança: pela primeira vez as coligações aos cargos definidos pelo sistema proporcional – justamente o de deputados, que sustenta o financiamento dos partidos – serão proibidas em 2022, decorrente da aprovação da Emenda Constitucional n.º 97/2017.  Ou seja, o cálculo dos partidos sobre a disputa nos estados é potencialmente a prioridade das estratégias eleitorais do próximo ano, tendo em vista a necessidade de palanque (seja ele virtual ou não) para os candidatos aos cargos legislativos.

O pragmatismo eleitoral, saudável em qualquer democracia, já que partidos políticos em uma democracia existem (também) para disputar eleições, deverá vencer o sonho de quem almeja a união do partido A, B ou C já no primeiro turno – geralmente tal sonho é algo carregado de um julgamento moral do analista sobre o que os partidos políticos devem ser e fazer. Se os partidos irão renunciar a candidatura própria ao principal cargo em disputa de 2022 isso irá depender muito do jogo nos estados. A pandemia da Covid 19 mostrou que o papel dos governadores, bastante esquecido nos últimos anos frente ao poder do Executivo Federal, é fundamental em contextos de crise. Não é um pleito que pode ser desprezado pelos partidos. O desafio de vencer a extrema direita liderada por Jair Bolsonaro é imenso e importante, mas ele dependerá essencialmente da escolha do eleitorado no segundo turno do ano que vem.

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