As eleições legislativas pós-Lava Jato

Cláudio André de Souza

30 Janeiro 2018 | 20h41

As últimas pesquisas de intenção de voto apontam para um cenário incerto de quem governará o país a partir de 2019. Os principais partidos ainda estudam a melhor estratégia capaz de se apresentar para uma parcela mais “exigente” do eleitorado, que intensificará com a Lava Jato uma crise de representação em direção ao sistema político. Para se ter uma ideia, a condenação do ex-presidente Lula, independente do mérito, reforça a tendência de instabilidade política dentro de um universo de um pouco mais que um terço dos eleitores que deseja votar no petista nas próximas eleições.

Se as investigações da Lava Jato, por um lado, impactam no cenário presidencial, por outro, não é diferente em relação às eleições para o legislativo (Câmara e Senado). Diversas lideranças regionais e partidos políticos estão às voltas com a montagem das pré-candidaturas diante dos abalos gerados pelas investigações, abrindo, assim, uma espécie de “vácuo representativo”, afetando bases eleitorais e como será a redefinição dos espaços políticos das lideranças partidárias.

O caso do Rio Janeiro é emblemático, já que o MDB foi devastado pela Lava Jato, afetando bases eleitorais consistentes e significativas, como as de Eduardo Cunha e da família Picciani. A prisão do ex-governador emedebista Sérgio Cabral e as suas 21 denúncias oferecidas pelo MPF até aqui retratam bem o clima de devastação sofrido pelo partido no estado do Rio de Janeiro. Embora o ex-prefeito Eduardo Paes desponte como nome forte para o governo, é arriscada a manutenção da sua candidatura dentro do MDB diante de tamanho desgaste político do partido.

O redesenho das bases eleitorais para as eleições legislativas cariocas pode apontar para a tendência de definhamento a depender de qual nome será escolhido para o governo do estado, já que as alianças nas eleições proporcionais e para o Senado estão ligadas à “competividade sistêmica” para a conquista do governo estadual enquanto um padrão de competição política na democracia brasileira.

O caso baiano também é relevante, mas em proporção menor em termos de projeção eleitoral. A prisão recente do ex-ministro Geddel Vieira Lima e as investigações em curso envolvendo o seu irmão, o deputado federal Lúcio Vieira Lima apontam para um grau de incerteza quanto à definição de quem sucederá ambos na liderança partidária no estado em um momento no qual os emedebistas se preparavam para lançar Geddel na chapa com o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), dentro de um cálculo que consolidasse o seu irmão na liderança do MDB em 2019. A depender da justiça e dos fatos, caso Lúcio esteja impedido de se candidatar abre-se um espólio de no mínimo 222.164 votos (3.34% de votos válidos), que ele obteve nas eleições de 2014. O lugar do MDB na possível chapa liderada pelo prefeito de Salvador se tornou remota diante dos escândalos que podem enfraquecer a chapa de oposição ao PT na Bahia.

Os dois casos representam muito bem algo ainda pouco discutido pela imprensa e por pesquisas acadêmicas: a Lava Jato afetará o sistema político no âmbito do legislativo em vários estados, especialmente, no âmbito da montagem das listas de candidatos do partido, que dependem do perfil e composição política das direções partidárias.

Por fim, temos como hipótese de leitura dos fatos políticos que os prefeitos protagonizarão a operação da “máquina de votos” pelo país afora com o fim do financiamento empresarial de campanha. Partimos da premissa de que com a diminuição de recursos, as lideranças políticas locais serão ainda mais fundamentais no arranjo eleitoral de deputados federais e governadores, já que estão mais próximos dos eleitores e contam com outros tipos de recursos e barganhas para a captação direta do voto.

Daqui pra frente, a imprensa e as pesquisas acadêmicas podem ter um prato cheio caso queiram investigar o número de prefeitos no país que pretendem se lançar rumo a um passo maior na carreira para deputado federal. A carreira política municipal dos médios municípios é diferente das capitais e regiões metropolitanas, cuja a eleição para a prefeitura descende da passagem pelos corredores da Câmara dos Deputados.

Mais conteúdo sobre:

eleiçõesLava Jato