As campanhas eleitorais serão digitais?

As campanhas eleitorais serão digitais?

Cláudio André de Souza

04 de agosto de 2020 | 18h42

Nos últimos anos, diversos analistas políticos e especialistas em marketing advertiram que as redes sociais se tornariam um ambiente com forte impacto político. No final do século passado, o professor Bernard Manin (Universidade Paris 1) – autor do seminal The Principles of the representative government (1997) – abordou a ascensão histórica do que chamou de “democracia de auditório”, um sistema representativo conectado e fluido, caracterizado pela indeterminação, personificado, no qual candidatos individuais prevalecem ante as estruturas hierarquizadas e rígidas dos partidos.

O diagnóstico de Manin vingou na última década devido a uma complexidade social que envolve a internet, algo acima dos limites da política; no entanto, quem vive da política (Max Weber) soube tornar a vida privada uma “cereja no bolo”, um atrativo da vida pública, um conjunto de mudanças de forma e conteúdo que impactam as relações de representação entre indivíduos, grupos e políticos profissionais. A revolução feita pelo mundo digital promove transformações no mercado, nas sociabilidades, no mundo dos afetos, para além da política.

No entanto, a hiper-profissionalização de mandatos parlamentares, governos e campanhas eleitorais assumiu níveis de interação jamais vistos, e a vitória de candidatos digitais nas eleições de 2018 acelerou a busca por uma “fórmula de adequação” que tem gerado mudanças profundas na relação entre candidatos, partidos e eleitores em municípios com perfis sociodemográficos e culturais diferentes.

Para se ter uma ideia, dentre os 20 maiores colégios eleitorais do estado da Bahia, 18 possuem mais de 51% da população conectada ao Facebook, destacando-se aí Vitória da Conquista (74%), Salvador (70%), Itabuna (70%), Juazeiro (70%) e Santo Antônio de Jesus (69%). A grande parte das cidades baianas está conectada às redes sociais.

Se a pandemia antecipou as transformações relacionadas à “democracia de auditório” nas redes sociais com políticos digitais em torno de uma corrida dos candidatos em busca de um “capital político digital”, três pontos são preocupantes neste momento e devem ser levados em consideração nos debates sobre como serão as próximas eleições municipais.

Em primeiro lugar, o modelo digital não substituirá o protagonismo das agendas de pré-campanha e campanha in loco. Basta entrar nas redes dos pré-candidatos pelo Brasil afora, e veremos que a grande maioria está nas ruas visitando os apoiadores e realizando eventos de menor tamanho, mesmo que tomando algumas precauções e medidas de distanciamento; estamos tendo o “velho normal”: pré-candidatos buscando apoio de eleitores no corpo a corpo. Foi algo ingênua a previsão de uma parte dos analistas e marqueteiros de que os candidatos substituiriam quase que totalmente as agendas presenciais por lives, videochamadas e encontros virtuais.

Em segundo lugar, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começou a elaborar protocolos de segurança e precisará urgentemente apresentar normas e sugestões para a realização de eventos da pré-campanha e da campanha oficial, que inicia em 27 de setembro. Neste momento, o Tribunal deveria alinhar normas e recomendações com os partidos políticos, assim como um debate público sobre o assunto; por enquanto temos um “vazio institucional” sobre o andamento da pré-campanha e sobre o que se fazer neste período tumultuado de retomada das atividades e reabertura de quase todas as capitais do país.

Por fim, o TSE, os partidos e as demais instituições precisam se unir em uma “campanha da campanha”: ou passamos segurança de como serão as próximas eleições, ou a pandemia vai afastar a população das urnas e gerar abstenções consideráveis na comparação com o padrão observado nas últimas eleições das grandes cidades que possuem segundo turno – são 96 em todo o país. Sem um trabalho forte de informação e organização de uma logística segura, veremos abstenções entre 30% e 40% como um “novo normal”. É possível que vejamos no país a adoção forçada do voto facultativo às avessas, quando não há escolha.

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