A transformação da política está em curso, mas ainda falta você!

Ana Paula Massonetto

06 Setembro 2018 | 17h24

Se deixarmos a política com os piores, ela nunca terá uma melhora no nível intelectual, científico e ético.  Mario Vargas Llosa

Renovação da política virou um tipo de ‘mantra’ nesta eleição, em resposta aos escândalos de corrupção e à crise de representatividade dos partidos e dos políticos.

Embora metade do Congresso seja renovado a cada eleição, rotatividade considerada alta quando comparada com outros países, o padrão da classe política brasileira se mantém o mesmo. Em sua maioria, homens brancos e ricos: apenas 10% são mulheres, 5% se autodeclaram negros e apenas um deputado é LGBT, sendo que 60% dos parlamentares eleitos em 2014 eram parentes de políticos.

A forma como o sistema político está estruturado tende a beneficiar quem já faz política. Tanto a lógica eleitoral, quanto a cultura política, são competitivas e pautadas em redes de privilégios.

Depois que os outsiders decidem entrar para a política institucional, assumindo os ônus de se tornarem candidatxs (estigma, preconceito e reações desencorajadoras; exposição pública sua e de sua família; ausência completa de tempo para a família e compromissos de qualquer outra natureza por 6 meses; impacto nas finanças pessoais e riscos na carreira, inclusive de demissão, o que não é incomum), eles precisam disputar as legendas entre si.

Interessados em concorrer, já filiados aos partidos políticos, precisam lançar a pré-campanha no escuro, entre março a agosto do ano eleitoral, acionando suas redes, articulando apoio e investindo tempo e recursos na elaboração de toda a estrutura da campanha, sem qualquer garantia dos partidos de que receberão a legenda para concorrerem. A não ser que se trate, de pretendentes famosxs, conhecidxs de grande público, ou que tenham grande potencial ou lastro eleitoral evidentes e de mulheres, ao menos enquanto os partidos têm dificuldades de preencher a cota legal de 30% de candidaturas femininas.

Raramente há critérios objetivos, discussão com suas bases, e transparência na distribuição das legendas, dos recursos financeiros, do apoio das lideranças renomadas ou do partido em geral. Na prática, as lideranças partidárias, ignorando a fragilidade que geram para os próprios partidos e para o sistema político como um todo, costumam privilegiar os candidatos com mandatos, e/ou as redes de relacionamento dos dirigentes partidários, e/ou aqueles que julgam ter maiores chances na corrida eleitoral. Comumente os recursos e apoio acabam nas mãos de homens brancos. Raramente há investimento financeiro nas candidaturas femininas e de negrxs. É incomum os partidos terem planejamento ou estratégia de apoio coletivo, e xs candidatxs novatxs seguem à deriva, sem informações e sem apoio ao longo de suas campanhas.

Desconhecidxs dxs eleitorxs e com recursos financeiros escassos, a estrutura de campanha e as chances dos candidatxs novatxs são diminutas e passam a depender prioritariamente das redes sociais, de amigxs, voluntárixs e apoiadorxs, para elaborar e disseminar suas bandeiras.

Neste cenário inóspito, somado o fato de que candidatxs novatxs não costumam se eleger nas primeiras candidaturas, o apoio dos movimentos de renovação e aglutinadores de redes (a exemplo do Movimento Acredito, Bancada Ativista, Vote Nelas e Pacto pela Democracia, dentre outros), das escolas de formação (a exemplo da RAPs e do CLP, dentre outros), bem como dos mandatos coletivos (a exemplo do Mandato Cidadanista e do Mandato Coletivo Feminino) podem ser decisivos no surgimento de novas lideranças.

Ao promoverem processos seletivos, maior diversidade entre xs candidatxs, formações e compartilhamento de experiências, tais movimentos contribuem para melhorar a qualidade técnica dxs candidatxs e a representação da sociedade.

Otimizam também a disseminação das candidaturas, assegurando espaço na grande mídia, debates e eventos em geral. Um indicador é o volume diferenciado de doações para candidatxs dos movimentos de renovação, no escasso cenário dos financiamentos coletivos de campanha deste ano.

Ainda assim, almeja-se que o legado de tais movimentos vá além da renovação, qualificação e diversidade étnica racial, cultural e socioeconômica dxs candidatxs e futurxs políticxs, e contagie o jogo político partidário com práticas cooperativas.

Pois não basta a renovação de caras, precisamos de decisões políticas republicanas e qualificadas, que gerem políticas públicas capazes de desenvolver o país e reduzir desigualdades.

Mais do que alternância do poder, se faz necessária a renovação das ideias e, principalmente, das práticas. É urgente tornar o jogo cooperativo e mudar a cultura da política, transformando-a, na arte de criar (ao invés de destruir) futuros.

Para finalizar, um alerta importante para você: essa transformação das práticas e do país não virá dos partidos ou dos políticos. Ela depende de todos os brasileiros, de você eleitorx. Como disse Ghandi, ‘precisamos ser a mudança que desejamos no mundo’.

Portanto, se você encontrar umx políticx por vocação, aquelx que, segundo Rubem Alves, abre mão de seu próprio jardim para plantar um grande jardim para todos, considere lhe dar suporte, ofereça seu conhecimento e tempo voluntariamente, ajude-o a implementar e disseminar sua campanha. Como sugere Eduardo Rombauer, em sua obra O Vazio no Poder, “O que você tem a oferecer para tornar mais fértil e mais belo o nosso jardim?”