A representação política de Eduardo Cunha

A representação política de Eduardo Cunha

Cláudio André de Souza

23 de julho de 2015 | 14h04

Sem dúvida, um dos marcos da política moderna foi o surgimento da representação política enquanto nova forma de exercício do poder, estabelecida pela formação indireta de ação política. Lembrando que na ekklesia ateniense, embora fosse uma assembleia que reunia os cidadãos, a maioria se abstinha de participação ativa, conforme analisa a cientista política Nadia Urbinati (Universidade de Columbia) em um artigo seminal, “Representação como advocacy: um estudo sobre deliberação democrática”, que como seu título indica trata da representação política e do debate entre os estudiosos do tema.

A representação no contexto moderno adquire um sentido relevante na ação política como sendo o ato de tornar presente algo que, no entanto, não está literalmente presente. Em outras palavras, ser representado significa ser feito presente em algum sentido, enquanto não estando presente literal ou plenamente de fato. O debate introduzido pela cientista política, entre outros autores, estimula um novo horizonte na produção normativa sobre a democracia, saindo da negação da representação em favor do participacionismo (e vice-versa) em direção à “redescoberta” da representação e da participação como um continuum da ação política nas democracias modernas.

Talvez o que o país se pergunte sobre o momento político atual é que tipo de representação está sendo engendrada pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), diante das suas movimentações nos últimos meses. De maneira inconclusa, este breve artigo pretende tecer alguns argumentos:

a) No Governo Dilma I o parlamentar carioca se destacou ao longo do mandato com uma taxa de governismo (votações seguindo a orientação do governo) de 80%, segundo dados do Estadão Basômetro, havendo comportamento semelhante para toda a bancada do PMDB no Rio de Janeiro e nos demais estados, como se pode observar nas figuras abaixo. É possível perceber na legislatura atual uma leve propensão à diminuição na taxa de governismo dos parlamentares, mas distante de apontar um rompimento efetivo com o governo, o que sugere a existência de intensa negociação de agendas anteriores às votações. O rompimento de Eduardo Cunha com o governo pode derrubar ainda mais a taxa entre a bancada carioca e as outras com influência do Presidente, lembrando que o chefe político estadual (governadores) é um líder contundente na orientação das bancadas.

 

Figura 1-  Bancada do PMDB-RJ no Governo Dilma I

 

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Figura 2 – Bancada do PMDB-RJ no Governo Dilma II

b) Os impactos do rompimento de Eduardo Cunha com o governo não conseguem ser “mapeados” a curto prazo, uma vez que a “base aliada” do político envolve parlamentares de diversos partidos, o que perpassa pelo cálculo das estratégias eleitorais para 2016. Embora não seja visto pelo cidadão comum, corre a mil as conversas de bastidores para as próximas eleições, pois falta menos de três meses para o encerramento do prazo de filiação partidária, o que conduz Eduardo Cunha e o PMDB a balizar candidaturas e montagem de palanques. Liderando uma base com penetração em diversos partidos, Cunha ganha cacife como um líder nacional do partido, embora as suspeitas de seu envolvimento na Lava a Jato apontem para o caráter perecível do seu papel no parlamento, mas que em nada impede de continuar liderando a organização interna do PMDB e de outros partidos menores (de modo informal), semelhante ao prestígio de José Dirceu após o mensalão entre dirigentes do PT.

c) A oposição de Eduardo Cunha e o delineamento da sua agenda congressual apontam como fator comum o interesse em representar pautas conservadoras atualmente estruturadas na órbita antipetista. A sua agenda implementada a partir da ocupação da Presidência se estabelece em consonância programática com o núcleo da oposição (DEM e PSDB), porém enxerga mais além, ao considerar agendas que o colocam em posição de destaque dentro do campo peemedebista e da própria oposição. Valoriza-se em qualquer cenário.

d) Por fim, o sentido da representação política de Eduardo Cunha é dialogar com uma grande parcela da população cada vez mais crítica ao PT e que apresenta ideologicamente posições claramente conservadoras. Independente do conteúdo, diversas pautas levadas a cabo por Cunha estavam no rol de compromissos de agenda dos Governos Lula e Dilma, entrecruzando-se com o crescente sentimento de mudança latente desde as manifestações de junho de 2013, especialmente, a propalada reforma política. Como grande parte deste sentimento de mudança é ligado à conservação do status quo, o PMDB parece ajustado a cogitar um projeto nacional, algo restrito desde 1994 à polarização PT-PSDB. A representação política de Cunha tende a buscar identidade com segmentos da sociedade que já votaram tanto no PT quanto no PSDB. As eleições de 2016 serão um teste para as suas aspirações pessoais e as do PMDB.

 

* O artigo citado de Nadia Urbinati pode ser encontrado em:  https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/view/2175-7984.2010v9n16p51/12305

 

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