A importância do 15 de maio de 2019

A importância do 15 de maio de 2019

Carolina de Paula

23 de maio de 2019 | 15h51

*Texto escrito em parceria com Marcelo Alves, doutorando em Comunicação na UFF e sócio da Vértice Inteligência. 

O 15 de maio de 2019 ficará marcado como a data da primeira grande manifestação nacional contra as medidas abusivas da gestão Bolsonaro no Ministério da Educação. Milhares de estudantes, professores, e cidadãos comuns foram às ruas contestar o corte orçamentário de aproximadamente 30% que serve para o pagamento de atividades essenciais para a manutenção da vida universitária, tais como: contas de água, luz, material de higiene, pagamento de terceirizados e a realização de pesquisas.

No mesmo dia 15, o ministro da Educação Abraham Weintraub esteve na comissão geral no plenário da Câmara dos Deputados para prestar esclarecimentos sobre os motivos da medida. O comparecimento foi obrigatório, tendo em vista que o resultado da votação pela convocação do ministro foi de 307 contra 82.  Esse foi um nítido indicativo de que a Câmara não vai deixar passar batido qualquer decisão dos ministros da gestão presidencial. Houve considerável cobertura da mídia entorno da participação do ministro. Enquanto o ministro respondia por diversas horas as questões dos parlamentares, em um ambiente com menor visibilidade – grupos públicos do WhatsApp – explodiam mensagens de ódio contra os manifestantes e às universidades.

Saudadas, até bem pouco tempo, como uma via natural para a construção de uma democracia aperfeiçoada, as mídias sociais revelaram nos últimos anos um lado sombrio. Em toda parte, elas se revelaram um terreno fértil para a difusão de grupos políticos radicais, que promovem uma agenda de políticas do ódio. Esse cenário apresenta desafios inéditos para a qualidade das democracias mundo afora, bem como ameaças sérias aos direitos humanos. Atualmente, a sociedade parece pouco preparada para lidar com o problema, ou mesmo entender suas implicações. Cientes da gravidade do problema, um grupo de jovens pesquisadores universitários criou o “Observatório do Ódio”. O objetivo do projeto é investigar o uso das mídias sociais, de modo a identificar casos abusivos, em que a troca civilizada de mensagens cede lugar a manifestações concretas e organizadas de ódio. O grande diferencial da proposta, em sua fase inicial, é o fato de que ela cobre uma mídia social que, até o presente momento tem escapado aos radares do escrutínio público: os grupos públicos do WhatsApp.

O gráfico revela o tráfego de mensagens que mencionaram universidades no Observatório do Ódio. Foram monitorados diariamente[1], durante os meses de abril e maio, 30 grupos do app que discutem política:

Notamos que ao final do mês de abril as menções eram raras, e logo no início de maio vemos um aumento considerável, ainda que inconstante. Uma breve análise qualitativa das mensagens revela que a narrativa do ódio é a tônica da discussão, exemplos como esses, acompanhados de imagens e montagens fotográficas, são majoritários:

“Ridícula e a maioria esmagadora desta esquerdofila que nasce em nossas universidades.  Bolsonaro tem urgentemente que resgatar este nosso patrimônio, tomado por estes vagabundos ainda no governo militar.”

“Não se assuste. Não é um filme pornô. É uma universidade brasileira trabalhando as Ciências Sociais e humanas.”

O gráfico seguinte revela as universidades  mais citadas em mensagens de ódio. Não por coincidência as três primeiras foram aquelas citadas pelo ministro Abraham Weintraub como “promotoras da balbúrdia”:

A análise das mensagens trocadas em grupos do WhatsApp traz evidências de que o ambiente que cerca o debate parlamentar, hoje, é totalmente distinto do que existia até então. Diferentemente do que se imaginou por muito tempo as mídias sociais não são apenas o lugar de um debate virtuoso, travado em uma esfera pública, que aproxima a democracia do cidadão comum. Ele se tornou também o espaço de iniciativas que promovem o ódio e a intimidação, dirigidos não apenas contra os adversários políticos, mas também contra as próprias instituições basilares da democracia. Entender a lógica da circulação das mensagens – particularmente aquelas de ódio – nesse meio se apresenta hoje como um desafio fundamental para garantir o debate público e a própria segurança da democracia e os direitos humanos dos cidadãos a quem ela deve servir.

[1] Exceto nos dias 5 e 6/5 por um problema técnico na coleta de dados.