A Grande Família

Bruno Souza da Silva

19 de fevereiro de 2019 | 16h37

Se você acha que acessou a página errada, fique tranquilo. Está mesmo no blog Legis-Ativo. Aliás, se ao ler o título automaticamente cantarolou a seguinte canção tocada em rede aberta em seriado televisivo por anos: “Esta família é muito unida/E também muito ouriçada/Brigam por qualquer razão/Mas acabam pedindo perdão…”. Saiba que está tudo absolutamente normal até aqui. Apenas para relembrar, na Grande Família existem personagens caricatos: o funcionário público que deseja não se corromper, a dona de casa preocupada com o bem-estar de todos, o genro malandro aproveitando a bondade dos membros da família, o filho grudado às barras da saia da mãe. Isso tudo é bem fácil de imaginar e encontrar figuras como essas por aí. Agora, sabe o que realmente é difícil? A comédia brasileira competir com a realidade política nacional, marcada por “grandes” famílias perpetuando-se no poder e com personagens tão ou mais caricatos.

Por sinal, tem de tudo nessas famílias políticas. De filho do presidente promotor de uma crise governamental por falar demais em redes sociais, deixar o pai em maus lençóis e levar à demissão de um ministro recém-empossado, à família cuja permanência dos seus membros no Parlamento chega a quase duzentos anos de existência (família Andrada). Há também aqueles que não são da família, mas são os amigos mais chegados e logo se tornam agregados. Alguns viram até assessores.

Embora a dinâmica eleitoral brasileira seja competitiva e, em tese, a estruturação da disputa política em partidos aporte a moderna competição política, tradicionais famílias ocuparam (e ainda ocupam) espaço na política brasileira, controlam partidos e se reproduzem especialmente no Legislativo em seus múltiplos níveis. Em outras palavras, política é coisa da tradicional família brasileira. Senão de muitas, ao menos de algumas bem influentes. E, dentre elas, destacam-se indivíduos com grande capacidade de liderar e conduzir decisões políticas.

Há cerca de um ano, o presidente da Câmara Municipal da pequena cidade de Trabijú, no interior do estado de São Paulo, havia me contado sobre as eleições no município. Em sua visão não adiantava gastar dinheiro fazendo campanha eleitoral. Era necessário pedir voto para as famílias importantes da cidade. Afinal de contas, elas ofertavam votos em bloco fundamental para uma candidatura vitoriosa. É a famosa política da “porta a porta”, na qual candidatos a vereador batem de residência em residência para pedirem votos em época eleitoral. Aliás, na porta de entrada da política brasileira, nas eleições municipais, em pesquisas que realizei para a escrita de um artigo junto com o companheiro de blog, Humberto Dantas, nos chamou a atenção o fato de vários sobrenomes de candidaturas femininas, muitas delas autodeclaradas “donas de casa”, curiosamente serem os mesmos de outros candidatos. Seriam muitas candidaturas laranjas?

Se no interior do país as famílias são fortes, no Congresso, marcado por renovações para 2019 e um pleito no qual velhas oligarquias regionais foram rechaçadas, há sobrenomes resilientes. Entram nessa seara a família Bolsonaro, Neves, Maia, Calheiros, Cunha Lima, Caiado, Arraes, Collor, Barbalho e Magalhães, por exemplo. E famílias políticas não podem ser desconsideradas em uma análise mais ampla sobre o Legislativo. Até antes das eleições de 2018, havia cerca de 62% de deputados e de 70% de senadores originários de famílias políticas.

Recentemente, dentre os parlamentares eleitos para a presidência da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia possui parentesco político: filho de César Maia, primo do ex-deputado Felipe Maia e o seu pai, ex-senador José Agripino Maia. Por sinal, na onda da nova política, a senadora eleita em 2018 no Rio Grande do Norte, Zenaide Maia, afastou o sobrenome da campanha, virou Dra. Zenaide apenas. Ainda assim não deixa de ser prima de Agripino. Já Davi Alcolumbre, no Senado, além de ser de família política do Amapá, tendo um primo ex-deputado estadual (Isaac Alcolumbre), outro ex-vereador de Macapá (Moisés Alcolumbre) e um terceiro ex-suplente de senador (Salomão Alcolumbre), possui também familiares que controlam meios de comunicação em seu estado de origem, uma forma de poder político não institucional importante, se é que me entendem.

Uma ordem democrática moderna comporta muita coisa, principalmente no Parlamento. Pluralidade de visões, orientações ideológicas, forças partidárias, líderes dos mais diversos tipos. Agora, comportar clãs familiares por décadas e, em alguns casos por séculos, parece ser deletério a longo prazo. Reforça a lógica de mudar sem tirar nada do lugar.

Ah, tem uma frase na música da Grande Família que eu já ia me esquecer: “Êta família!”.

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