A direita nas ruas

Cláudio André de Souza

01 de setembro de 2015 | 12h50

As duas décadas anteriores à chegada do PT à presidência evidenciaram um processo gradual de conquistas eleitorais importantes no executivo e legislativo. Tais conquistas foram impulsionadas pela presença do partido em movimentos sociais focados em repertórios de ação que combinavam o apoio nos “gabinetes” (mandatos parlamentares) e nas ruas pela defesa programática de interesses, em grande parte, alinhados ao partido.

Grosso modo, a colonização do petismo pelo lulismo não desembocou em uma ruptura com os movimentos sociais em termos de representação de interesse. Mas a vitória do lulismo como signo da contradição (em termos do que o cientista político André Singer enxerga enquanto a relação entre reforma gradual e pacto conservador) provocou, a partir dos anos 2000, o desembarque dos movimentos sociais de grandes ciclos de protesto com capacidade de gerar uma série de críticas ao governo do qual secundariamente fizeram parte, desde 2002, por intermédio dos partidos.

As manifestações de junho de 2013 reforçaram as críticas à qualidade dos serviços públicos, levando a classe média a expressar um sentimento de mudança ancorado na avaliação negativa dos políticos e das principais instituições do país. Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pelo Datafolha no início de agosto daquele ano mostrou que apenas 13% dos brasileiros aprovavam o trabalho dos deputados e senadores, aumentando nove pontos após as manifestações.

O que se sucedeu em 2013 e nas eleições de 2014 foi a radicalização das críticas ao governo em torno de um antipetismo existente antes dos escândalos de corrupção envolvendo o partido. Isto levou uma parte do eleitorado a manter-se mobilizada, sobretudo, por meio das redes sociais.

Diversas pesquisas realizadas em 2015 sobre o perfil dos manifestantes contra o PT em algumas capitais do país apontam para um eleitorado do tipo conservador que começa a ir às ruas, sendo esta a principal novidade do momento político atual. A oposição e o seu respectivo eleitorado apresentam até aqui uma disposição de “militância”, antes uma condição típica dos partidos de esquerda com forte enraizamento nos movimentos sociais.

Embora este novo cenário de mobilização e protestos seja algo positivo à democracia, o clima de “Fla x Flu” (ver artigo de José Roberto de Toledo) produzido por esta radicalização do antipetismo empobrece o debate profundo sobre os desafios da democracia brasileira.

Segundo pesquisa do Datafolha referente ao perfil dos manifestantes da Avenida Paulista no dia 16/08, 95% avaliam o governo da Presidente Dilma Rousseff como ruim/péssimo, mas somente 25% dos entrevistados avaliam assim o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, suspeito de corrupção fruto de investigações da PF na Operação Lava-Jato. Sendo cidadãos muito bem informados, com altos níveis de renda e escolaridade, é possível inferir que raciocinam como se na política só houvesse como solução a extinção política do PT, desconsiderando as questões estruturais do sistema político.

Enquanto “empresa de interesses”, conforme definição weberiana, é impossível aos partidos proceder um congelamento das estratégias à espera do desfecho do impeachment, desse modo, corre solta nos bastidores a preparação das candidaturas para as eleições locais de 2016. Se nas ruas o PT é o grande vilão, sabe-se que a dinâmica presidencialista determina à oposição o flerte com os seus “cúmplices” no nível local.

As tendências para as eleições de 2016 apontam para alguns pontos possíveis a serem explorados pela ciência política:

  • O êxito dos protestos antipetistas levam uma parte dos seus líderes a pensar em candidaturas já nas eleições de 2016, o que pode tirar de cena parlamentares tarimbados, que cederiam espaço para figuras outsider da dinâmica interna dos partidos. É comum em diversas capitais a eleição para a câmara municipal de políticos com vasta experiência na assessoria de deputados que um dia passaram pelo cargo. Os vereadores são, antes de qualquer coisa, filiados aos mandatos parlamentares daqueles que cederam politicamente espaço para ascensão destes “vereadores-assessores”.
  • As eleições sob um clima de radicalização antipetista nas grandes cidades tende a ocorrer mediante um caráter plebiscitário contra o PT, já observado em 2012, quando as eleições entrecruzaram-se com o julgamento do mensalão no STF. PMDB e PSDB reconhecem que, para além da pauta do impeachment, as eleições de 2016 definirão o tamanho e a força real dos partidos para 2018.
  • Desde 2004, o PT constroi suas campanhas para o legislativo e o executivo municipal utilizando-se do peso político exógeno de Lula e Dilma enquanto “parceiros”. Nos grandes centros de competição pelo voto não há a mínima condição de considerar esta estratégia como razoável. Sem o peso de Lula e de avaliação positiva do governo federal, será arriscado o PT “nacionalizar” as eleições municipais como fizera nas últimas eleições.

De uma maneira geral, a crise política e econômica deve produzir em 2016 novas agendas direcionadas por pautas ideológicas, claramente vinculadas à classe média e com potencial transformador das eleições para o Legislativo municipal em um espaço mais amplo de discussão da conjuntura. No entanto, esta tendência deve ficar restrita às grandes cidades.

Considerando um contingente significativo de cidadãos conservadores nas ruas bradando por mudanças na política, é provável que nas próximas eleições surjam novas candidaturas ao parlamento de lideranças da sociedade civil, buscando votos “ideológicos”, deixando de ser um caminho monopolizado pelos partidos de esquerda. Estas lideranças não se restringem aos organizadores do protesto, mas envolve um conjunto de apoiadores que exercem influência econômica e política na sociedade.

Esta inflexão pode levar à qualificação do legislativo, desde que os diálogos não sejam determinados pelo antipetismo e abortados por partidos dragados por uma crise de representatividade, que até aqui não tem gerado ônus somente ao PT. O caminho natural nas instituições representativas é fazer das ruas um campo de disputa do que se quer nas urnas. As mobilizações de rua são uma grande aposta eleitoral dos partidos de oposição que, no padrão de competição política, terá como efeito imediato a ser pesquisado a composição das câmaras municipais e o seu índice de renovação de mandatos.  

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