A cartada política de Temer

Vítor Sandes

09 de dezembro de 2015 | 08h33

O PMDB foi o partido mais vitorioso nas eleições de 1986, conquistando quase a totalidade dos governos estaduais e a maioria das cadeiras no Congresso. Naquela época, dizia-se que o Brasil estaria passando por um processo de “mexicanização”, em alusão ao PRI, o Partido Revolucionário Institucional, que controlou o poder por décadas no México. Exageros à parte, o PMDB tinha desbancado o PDS, originado da ARENA, tornando-se o grande partido brasileiro nos primeiros passos da democracia tupiniquim. Ainda era cedo para afirmar que o partido seria hegemônico no contexto de formação da fisionomia do sistema partidário brasileiro.
Além das condicionantes institucionais, que flexibilizava a criação de partidos políticos e estimulava a fragmentação partidária, o PMDB possui características organizacionais que impediram uma ação mais coesa do partido ao longo do tempo. As diferenças regionais do partido o levaram a se estruturar em torno de uma federação de lideranças desconectadas que se focam em seus objetivos políticos estaduais, em detrimento das pretensões do partido nas eleições presidenciais. As condições internas da organização, herdadas do MDB, forçou a agremiação a unir diversas lideranças políticas regionais que não teriam disposição a convergir politicamente. As disputas entre essas lideranças e, consequentemente, a dificuldade de se posicionar programaticamente, além do grande desgaste político sofrido durante o governo Sarney, levou a fracos desempenhos eleitorais nos pleitos presidenciais de 1989 e 1994.
Nas duas eleições presidenciais em que disputou, o partido obteve votação pífia: em 1989, o peemedebista Ulysses Guimarães obteve 4,7% dos votos e, em 1994, com Orestes Quércia, 4,4% apenas. Após 1994, o PMDB não lançou mais candidatos à presidência da República e o PT e o PSDB passaram a disputar, de forma acirrada, o pleito presidencial, além de ampliarem suas bancadas e seus pesos nos estados. Ainda assim, devido às suas características organizacionais, em que se apresentava estruturado em todo o país, com raízes fincadas nas diversas regiões, estados e localidades, o PMDB sempre teve bancadas numerosas, sendo essencial no apoio legislativo aos governos no nível federal. Desse modo, o partido passou de uma agremiação com pretensões nacionais, durante a década de 1980, a um partido com vocação regional e governista, participando dos pleitos presidenciais como coadjuvante, mas sendo peça-chave na condução da governabilidade no nível federal.
O PMDB foi um ator político fundamental nas coalizões dos governos do PSDB e do PT, obtendo, em 2011, a vice-presidência, com Michel Temer, político com longa trajetória no Congresso. O peemedebista teria uma função política fundamental na condução da governabilidade no mandato de Dilma Rousseff: conduzir a base de apoio do PMDB junto ao governo. De 2011 a 2015, as condições do governo se modificaram: a popularidade da presidência caiu, a situação econômica piorou e o Congresso se tornou mais fragmentado, ampliando os custos de se obter apoio legislativo de forma consistente. Somando-se a isso, Temer passou a ter um papel ainda mais coadjuvante quando Eduardo Cunha, do PMDB, fora eleito presidente da Câmara dos Deputados, ganhando papel de protagonista dentro do partido. Com isso, Temer se enfraqueceu junto ao governo.
Neste estranho ano de 2015, em pouco tempo, as condições novamente mudaram: contas na Suíça, investigações, Delcídio e abertura do processo de impeachment. Temer ganhou uma nova chance. Escreveu uma carta, endereçada à presidente, vazada ao grande público. Sobre como aconteceu o vazamento não importa, mas, como mesmo disse o vice-presidente: “verba volant, scripta manent” (palavras voam, escritas permanecem).
Não foi uma carta de desabafo apenas. Rompeu com a presidente. Acenou para o PMDB e para o público: desvinculou-se do governo e não faz mais o papel de coordenação da base peemedebista no Congresso. Ponto por ponto (foram onze ao todo), o peemedebista explicitou as razões do rompimento: de ser um “vice decorativo”, de não participar das grandes decisões econômicas e políticas do país, de não conseguir manter suas indicações dentro dos Ministérios e de não participar das reuniões estratégicas do governo. A partir do diagnóstico do seu isolamento dentro do governo, Temer acena para uma possível unificação do PMDB em torno do programa “Uma ponte para o futuro” (desconsiderado pelo governo, segundo ele). Na carta, Temer não se refere ao PMDB como parte do governo, mas como uma unidade com posicionamento próprio e uniforme. Finaliza que a tranquilidade chegará, mas, certamente, não com a confiança restabelecida entre o seu partido e a presidente.
A carta é um discurso político. Temer acenou para sua bancada no Congresso, demonstrando que o PMDB dificilmente terá o espaço que gostaria dentro do governo e que, muito menos, o governo partilha dos mesmos posicionamentos do partido. O PMDB é o fiel da balança. Com ele, o governo fica, sem ele, o governo, provavelmente, cai. Em um PMDB extremamente heterogêneo internamente, com interesses regionais distintos, o partido tenta construir um posicionamento nacional em torno da real chance de ocupar o posto presidencial. Assim, a carta deve ser lida como um posicionamento público de Temer sobre ele e o PMDB serem as reais opções para o país e, consequentemente, para a garantia da estabilidade política.
Se a carta de Temer terá esta força, somente o tempo dirá. Caso contrário, será lida apenas como um desabafo de alguém que foi preterido dentro do governo.

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