A arma da ignorância é apenas a desqualificação pessoal

Humberto Dantas

12 de abril de 2021 | 17h48

*Texto coletivo do BLOG LEGIS-ATIVO

No século XXI, esgotados pelo isolamento, ainda há quem defenda educar filhos longe das escolas. Aqui nesse BLOG, que reúne 20 cientistas políticas e cientistas políticos, não temos muita paciência para um debate desses, a despeito de tocarmos em alguns de seus aspectos algumas vezes no âmbito do Poder Legislativo. Acreditamos na Democracia e no que entendemos serem alguns absurdos que a liberdade de pensamento carrega, mas isso não pode permitir que numa instituição formal como o parlamento a defesa de ideias circule pelo campo de indicações no campo pessoal.

Hoje, dia 12 de abril, um senhor de nome Rick Dias, intitulado Presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), sobre o qual nada encontramos em termos curriculares na internet, dirigiu-se à senhora Andressa Pellanda, Coordenadora Geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, nos seguintes termos: “menina”, a mandando estudar em pleno ambiente de audiência pública na Câmara dos Deputados.

A Câmara dos Deputados, casa legislativa que debateu e aprovou a Constituição Federal de 1988, que define no inciso IV do art. 3º como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, não pode permitir esse tipo de tentativa de deslegitimação e de falta de respeito com nenhuma mulher ou jovem, com nenhuma instituição da sociedade, ou com qualquer cidadã ou cidadão residente neste país. A despeito de um histórico que nos leva a pensar sobre o quão triste é nosso parlamento nacional, a postura do representante da ANED não condiz com a seriedade do debate a ser empregado na Casa – sobretudo por representantes de movimentos da sociedade que utilizam esse espaço na busca da defesa de seus interesses e visões de mundo.

A afirmação preconceituosa demonstra desrespeito às “meninas”, às juventudes, e à divergência de opinião, contrariando princípios primordiais à educação de qualidade que todos pretendem defender.
Parte do texto acima está em manifesto de apoio à Andressa. Aqui nesse blog ela foi gestora de nossos conteúdos, e ficamos muito à vontade para falarmos a respeito dessa mulher. Pellanda é uma das pessoas que MAIS entendem de educação nesse país, a despeito de podermos discordar em diversos pontos. Na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde fez pós-graduação em Ciência Política, entregou o TCC mais brilhante que a coordenação do curso teve a oportunidade de ler. O trabalho é TÃO bom que foi publicado na Revista Cadernos Adenauer em 2016. Seu brilhantismo vai além. Profissional extremamente preparada, estudou e viveu fora do país, conhece faz ANOS o universo da educação como objeto de seu trabalho. Recentemente foi catapultada ao RARO DOUTORADO DIRETO em seu mestrado na USP por razões óbvias: é brilhante. E se parasse de estudar hoje, o que não ocorrerá, certamente teria anos de frente para a mais absoluta maioria das pessoas desse país que participam desse essencial debate.

Assim, se hoje numa comissão da Câmara dos Deputados ouviu de um sujeito que defende a educação SEM escola que ela é uma MENINA que deveria ESTUDAR, perguntamos aqui: onde? Em casa? Seguramente não. Pellanda sabe rigorosamente o quanto a escola nos aporta e lhe aportou. Infelizmente a defesa da ignorância adora se servir do machismo e da intolerância. Sabemos, de onde estamos nesse blog, que enxergar gênios, e lembrar deles em nossas salas de aula, faz parte do jogo da vida. Andressa: você é MUITO MAIOR que isso. Saudações e a solidariedade daqueles que um dia a tiveram em sala de aula, e hoje a tem num palco para o qual dirigimos os nossos aplausos.

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