2018: a volta da normalidade política?

Joyce Luz

25 Janeiro 2018 | 14h07

Estava ontem indo trabalhar. Entrei no elevador com mais dois homens que aparentavam ter no máximo entre 40 e 50 anos e o seguinte diálogo estava acontecendo:

– Até o final do dia de hoje o Lula [eles se referiam ao ex-presidente Lula] estará com sua sentença determinada!

– Sim! – respondeu o outro homem – Será a primeira vez na história brasileira que a justiça dos homens será feita. Lula vai pagar por seus crimes políticos.

– E sabe o que vai acontecer depois de tudo isso? A crise política no Brasil vai ter fim e vamos, finalmente, voltar à normalidade. Sem o Lula concorrendo às eleições desse ano, com certeza não vamos mais ter com o que nos preocupar.

Não se assuste leitor, esse texto não será, ou pelo menos eu espero que ele não seja, uma crônica. Mas confesso aqui que esse diálogo – que é verídico – não saiu da minha cabeça. Não pelo fato do resultado do julgamento e da condenação do ex-presidente Lula. Outros dois pontos da conversa é que despertaram a minha atenção: (i) a ideia de que a política brasileira voltará a normalidade e (ii) a ideia de que sem a candidatura do Lula nas próximas eleições, nós eleitores não temos mais nada com que nos preocupar.

Isso me faz lembrar que hoje é 25 de janeiro de 2018. Que faz exatamente 25 dias que estamos em um novo ano. Um dos anos – ao menos para a política brasileira – mais esperado. Ano de encerramento de ciclos. Último ano de governo para presidente, para governadores, para alguns senadores e para deputados federais e estaduais. É o ano da renovação. É o ano de novas escolhas.

Passado o julgamento do ex-presidente Lula, a mídia e os próprios eleitores vão começar a voltar seus olhares para a formação do cenário eleitoral que, após esse julgamento, com certeza se tornará mais claro e concreto. Mas não é isso que quero discutir aqui. O fato é que daqui para frente estaremos ocupados com questões como: quem serão os candidatos para presidente? Quais partidos apoiarão os candidatos um dos outros? Quais as promessas eleitorais? Quais os programas de governo? E assim por diante.

Não acho errado nos ocuparmos com essas questões. Muito pelo contrário. Acho saudável e importante em um ano eleitoral. Mas voltando ao diálogo que mencionei,  há uma outra coisa que a maioria de nós não vai se preocupar, mas que deveríamos. Ontem, 24 de janeiro, o Presidente Temer em um encontro anual do Fórum Econômico Mundial, anunciou sua agenda de reformas com o seguinte slogan: “O Brasil está de volta”.

Estamos no dia 25 de janeiro. Até as novas eleições – que serão realizadas no dia 07 de outubro –  teremos exatamente 255 dias e, até o fim do atual governo – 31 de dezembro de 2018 –, teremos 340 dias. Para ser direta: ainda teremos muitos dias pela frente. Ainda teremos, ao contrário do que alguns pensam, muita coisa para nos preocupar. Ainda dá tempo para serem feitas muitas reformas dentro de casa.

Agora em fevereiro o Congresso Nacional volta do recesso e o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), já anunciou que o ano começará com a votação da Reforma da Previdência. Para além dessa reforma, cuja expectativa é pela aprovação, dado que a base governista parece finalmente ter entrado em um acordo, o deputado e relator Luiz Carlos Hauly (PSDB) também já anunciou que até o final de junho ele pretende já ter discutido e levado para a aprovação do plenário a proposta da Reforma Tributária.

Ainda não podemos esquecer que agora em 2018, sob esses primeiros 25 dias, a Reforma Trabalhista, bem como a Reforma do Ensino Médio – ambas aprovadas no ano passado – já estão em pleno vigor. Outro destaque ainda é para a Reforma Eleitoral que também começará a mostrar seus primeiros resultados, ainda incertos, em breve.

Não sei o que aqueles dois homens que encontrei ontem no elevador estavam chamando de “normalidade” e também não sei, ainda, com o que nós não devemos mais nos preocupar. Eu sei que estamos em um ano eleitoral. Eu sei que é um ano de escolhas. E é justamente por isso que eu também acho que ainda temos que nos preocupar. Ainda temos um governo em vigência. Ainda temos nossos atuais políticos, que serão futuros candidatos, discutindo e aprovando políticas que serão implementadas.  Ainda temos novas políticas que estão em vigor para analisar. Nós ainda temos muito com o que nos preocupar. E sempre teremos enquanto cidadãos e eleitores.

Se esse texto fosse uma crônica,  um bom título para dar início aos textos que estarão no blog,  ainda esse ano, seria: 2018 com certeza não será um ano normal.