Tucano defende impeachment e fala em ‘assombração política’ no Planalto
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Tucano defende impeachment e fala em ‘assombração política’ no Planalto

Eduardo Graeff diz preferir se arriscar com o PMDB e Temer que engolir o PT

Julia Duailibi

26 de março de 2015 | 05h41

O cientista político Eduardo Graeff diz haver elementos que justifiquem um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. “A confiança do País, o respeito dos aliados e a capacidade de decisão ela já perdeu. Acho menos arriscado para o País liberá-la do cargo do que tê-la como uma assombração política no Planalto pelos próximos anos”, declarou.

Graeff, que foi subchefe da Casa Civil para Assuntos Parlamentares e secretário-Geral da Presidência no governo FHC e é autor do livro Corrupção no Brasil: de Sarney a Lula, rechaça o risco de o PSDB ser tachado de golpista ao defender a saída de Dilma. “Risco nenhum: o PSDB já está sendo tachado disso. Será tachado, independentemente do que faça ou deixe de fazer, porque essa é a reação habitual do PT e adjacentes: defender-se atacando. Mas parece que isso não cola mais, não é?”

Eduardo Graeff. Foto: Ed Ferreira/Estadão - 17.04.1997

Eduardo Graeff, ex-secretário-geral do governo FHC — Foto: Ed Ferreira/Estadão – 17.04.1997

Questionado sobre o papel do PMDB na crise, ele afirmou: “Há quem prefira engolir Lula, Dilma e o PT, apesar de tudo o que fizeram, do que se arriscar com Temer e o PMDB, pelo que poderão vir a fazer. Eu, não”.

Quais as razões da crise política pela qual passa o governo Dilma?

As mais óbvias são a deterioração da economia e a saturação da opinião pública com os desmandos do PT e seus aliados. Dilma tem sua parcela de responsabilidade nisso, mas o que soou mais alto nos protestos de 15 de março foi “Fora PT”.

Como deve ser o posicionamento do PSDB e da oposição em relação à crise atual? Acha que os tucanos deveriam aumentar o tom contra a presidente?

Os representantes do PSDB estão fazendo a parte que lhes cabe como principal partido de oposição. Não fazem mais porque não têm número no Congresso para fazer mais. A sorte de Dilma – se sorte for a palavra apropriada – está nas mãos do PT e do PMDB.

Há elementos para pedir a abertura de um processo de impeachment contra Dilma Rousseff? O PSDB deve conduzir esse processo?

Por tudo que as investigações revelaram até agora, Dilma sabia do Petrolão e sua campanha recebeu dinheiro desviado. Isto, na minha opinião, justifica o impeachment. Pelas últimas pesquisas de opinião, está se formando uma ampla maioria que também pensa assim. O PSDB não tem força para conduzir esse processo, nem nas ruas, nem no Congresso. O que não o impede de apoiar os protestos e votar a favor do impeachment, se o processo chegar a isso.

O PSDB corre o risco de ser tachado como golpista e de alimentar um “terceiro turno”, como dizem os governistas?

Risco nenhum: o PSDB já está sendo tachado disso. Será tachado, independentemente do que faça ou deixe de fazer, porque essa é a reação habitual do PT e adjacentes: defender-se atacando. Mas parece que isso não cola mais, não é?

Em 1999, o governo do ex-presidente FHC também enfrentou uma crise com pedidos de abertura de impeachment? É possível traçar um paralelo entre as duas conjunturas?

Não. FHC teve tutano e apoios no Congresso e na sociedade para superar a crise econômica. Quanto a denúncias de corrupção, nenhuma se sustentou, apesar de amplamente investigadas pela imprensa, pelo Congresso e pela Justiça.

O PMDB tem se portado como oposição ao governo Dilma, apesar de formalmente fazer parte da base governista. O PMDB é a solução ou um dos motivos da crise política?

O motivo básico da crise é o comportamento de Lula e seu partido. O PMDB é um coadjuvante importante, mas só um coadjuvante. Se houver impeachment, ele passa para o primeiro plano, com Temer. E terá que governar o Brasil. Nem eu, nem eles, nem ninguém sabe se conseguirão, o que modera o entusiasmo de qualquer um pelo impeachment. Há quem prefira engolir Lula, Dilma e o PT, apesar de tudo o que fizeram, do que se arriscar com Temer e o PMDB, pelo que poderão vir a fazer. Eu, não.

O PT começa a perder parte do prestígio em setores da sociedade que foram base eleitoral do partido nos últimos anos. Acha que o PSDB consegue atrair esse eleitor menos escolarizado e com renda mais baixa, ou o partido ainda tem dificuldade de se apresentar como alternativa de poder para esses segmentos da população?

Não vejo dificuldade especial. O PSDB não teria governado o Brasil nem governaria vários estados e centenas de municípios sem apoio dos mais pobres. O que não quer dizer que ele vá herdar o eleitor cativo do PT, que não é exatamente pobre, mas dependente do Estado.

Durante as manifestações de 15 de março, houve pedidos de intervenção militar. 

O número dos que apareceram pedindo isso me parece insignificante.

O governo Dilma vai conseguir chegar ao fim?

Já chegou, na verdade. A confiança do País, o respeito dos aliados e a capacidade de decisão ela já perdeu. Acho menos arriscado para o País liberá-la do cargo do que tê-la como uma assombração política no Planalto pelos próximos anos.

 

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