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Sem grande marca, Alckmin se torna ‘case’ eleitoral

Tucano deve ser reeleito no primeiro turno hoje, apesar dos trancos e barrancos pelos quais passou sua administração

Julia Duailibi

05 de outubro de 2014 | 11h37

Análise publicada no caderno Especial Eleições, do Estadão.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), tornou-se uma espécie de “case” eleitoral na disputa de 2014. Com 57% dos votos válidos na última pesquisa Ibope, o tucano pode ser reeleito neste domingo, já no 1.º turno, apesar dos trancos e barrancos pelos quais passou a sua administração. A provável vitória dará a Alckmin um portfólio de 13 anos na condução do governo paulista. É um recorde que não se traduz em desgaste nas urnas, ainda mais se considerados os últimos dois anos, período particularmente difícil para o governador e que sugeria a corrosão do discurso da continuidade no Estado, governado pelo PSDB desde 1995.

O inferno astral de Alckmin começou com uma crise na segurança pública em 2012. Depois, vieram as manifestações de junho de 2013 que tomaram as ruas de São Paulo, se espalharam pelo País e fizeram a taxa de aprovação de sua administração despencar.

No fim do ano, apareceram denúncias sobre um esquema de cartel nas licitações para compra de trens em São Paulo, escândalo que envolveu integrantes do PSDB e funcionários do governo. Em 2014, foi a vez das estatísticas ruins sobre violência, dos atrasos nas obras do Metrô e do nada desprezível problema no abastecimento de água – em dois anos, praticamente secaram os cinco reservatórios do Sistema Cantareira, a principal caixa d’água da Região Metropolitana.

O repertório de más notícias levou integrantes da própria equipe do governador a traçar prognósticos pessimistas para a eleição de hoje. Agora, a avaliação mostra-se equivocada: Alckmin chega às urnas com uma aprovação de 48% dos eleitores e com uma taxa de rejeição baixa, em torno de 22%.

A explicação para o bom desempenho, como sempre, está numa combinação de fatores, que envolvem desde uma oposição anêmica e um sistema eleitoral que favorece o candidato à reeleição até a imagem pública que o governador construiu para si desde que herdou o governo de Mario Covas, em 2001.

A resistência ao PT entre os paulistas é grande. Aqui, nas últimas duas eleições presidenciais, o partido perdeu para os tucanos. Tanto que o slogan do governador nesta eleição foi “Aqui é São Paulo”, um recado aos navegantes de que o PT não entra no Estado. O candidato petista, Alexandre Padilha, mesmo sendo desconhecido do eleitor, tem rejeição maior que Alckmin, com 37%.

A força do PSDB também guarda relação com a falência do malufismo, que jogou no colo dos tucanos eleitores conservadores que, por enquanto, não viram no PMDB uma opção – gestões de Orestes Quércia e Luiz Antonio Fleury não deixaram saudade e dificultam a vida de Paulo Skaf, o adversário mais competitivo de Alckmin.

Aliada ao contexto político paulista, está a empatia que o governador criou com os eleitores, principalmente o do interior, que gosta do médico extremamente católico e oriundo da classe média também interiorana. Alckmin representa valores do paulista médio, que o aprecia por sua postura conservadora, sua religiosidade e o seu discurso de defesa da ética e da eficiência – não colam nele denúncias de corrupção, e as pessoas dizem acreditar que o tucano é um homem “de bem”. Essa imagem o ajudou a levar nos ombros uma administração que entregou obras, principalmente viárias, e promoveu avanços sociais, mas que não deixou uma grande marca.

“Não sei por que as pessoas vão votar no Alckmin. Eu não sei”, disse o ex-presidente Lula, durante um compromisso de campanha na semana passada. O petista jogou para a plateia. Ele sabe as razões que podem levar Alckmin a vencer a eleição e que o tornam um fenômeno eleitoral tão competitivo, mas talvez circunscrito a São Paulo. Talvez não. 2018 é que dirá.

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