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Pregação eleitoral

Julia Duailibi

31 de outubro de 2014 | 05h43

Publicado no Estadão Noite

Renato Pereira, que foi marqueteiro de Aécio Neves (PSDB) antes de começar a eleição, em entrevista à Folha, publicada na segunda-feira, falou sobre o que considerada ser um dos motivos que levaram a candidatura tucana à derrota: a campanha teria pregado para convertidos. Concordo com Renato Pereira. No segundo turno, a campanha de Aécio perdeu gás entre os eleitores indecisos e aqueles que haviam votado em Marina Silva (PSB) porque preferiu manter um discurso para os “seus”.

No embate com Dilma Rousseff (PT), Aécio deveria ter ampliado o alcance de sua retórica e de suas propostas. Mas pregou basicamente para quem estava farto do PT. Defendeu a redução da maioridade penal, cometendo o mesmo erro do primeiro turno ao lançar Arminio Fraga ministro da Fazenda: sinalizou para quem já orbitava na sua candidatura. Sem um discurso que os tocasse e alvos da estratégia maliciosa da campanha adversária, indecisos e eleitores de Marina, que chegaram a flertar com o tucano, acabaram afugentados.

A defesa do legado de FHC, a maior feita nas últimas eleições do PSDB, foi positiva por não deixar o candidato na defensiva, armadilha em que caíram os tucanos Geraldo Alckmin (2006) e José Serra (2010). Mas não dá para brigar com um fato: o eleitor avalia mal o segundo mandato de FHC, e a insistência nas comparações como um dos pilares da candidatura sem dúvida trouxe resistência de parte do eleitorado e deu munição para o PT na briga dos números.

Contra o amadorismo no marketing de Aécio, havia João Santana, no lado petista, experiente em campanhas presidenciais e com bom faro para perceber quais assuntos da pauta eleitoral podem crescer – e esse faro o marqueteiro tem ou não tem. Santana sabe para onde o vento sopra e, às vezes, flerta com golpes abaixo da linha da cintura, como na campanha de Marta Suplicy em 2008, quando fez insinuações contra Gilberto Kassab sobre sua vida pessoal. Nesta campanha, não foi diferente. Conseguiu colar em Marina a pecha de que era a candidata dos bancos (?!) e arrancou votos de Aécio no eleitorado feminino ao editar cenas de um dos debates nas quais o tucano chamava a presidente de “leviana”.

A campanha do PSDB foi lenta no contra-ataque a Dilma – e mais uma vez isso não tem a ver com baixaria eleitoral, envolvendo parentes, como se viu no debate do SBT. Enquanto Dilma estreou o segundo turno expondo críticas a Aécio, o tucano perdeu praticamente uma semana, com as mesmas peças publicitárias, falando sobre sua gestão em Minas. Era o momento de expor também as fragilidades do adversário, as contradições do seu discurso, os erros de sua gestão. Resultado: a rejeição de Aécio subiu e chegou a ultrapassar a de Dilma.

Soma-se aos erros de estratégia a questão política, e aí falamos de Minas. Aécio achou que o assunto estava resolvido por lá e que conseguiria uma ampla vantagem no seu quintal eleitoral. Escolheu um candidato ruim para disputar o Estado, perdeu no primeiro turno para o PT e não conseguiu se recuperar.

É verdade que o tucano conseguiu o melhor desempenho do PSDB nas últimas quatro eleições. Mas isso não é mérito só dele. A seu favor havia o desempenho do governo Dilma, principalmente na área econômica, os escândalos de corrupção e o sentimento anti PT – alguns tucanos consideravam a campanha a mais fácil dos últimos anos.

De qualquer maneira, apesar dos erros, Aécio está credenciado para 2018. Terá agora que se concentrar na travessia do deserto na oposição, por onde ficará quatro anos, ao lado de outros tucanos bons de holofotes, como José Serra, Aloysio Nunes Ferreira e Tasso Jereissati. E isso sem a máquina administrativa de Minas e com certa má vontade dos tucanos paulistas, que já se aglutinam em torno do governador Geraldo Alckmin.

O sucesso na travessia dependerá da pregação. Aécio não poderá mais falar só para os “convertidos”.

 

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