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Oportunismo eleitoral e o caso Neca Setubal

Quando interessava, na eleição de 2012, o PT usou o nome da “banqueira”, que até então chamava de “educadora”, para alavancar o candidato Fernando Haddad

Julia Duailibi

11 de setembro de 2014 | 20h30

Publicado no Estadão Noite.

A polêmica envolvendo Maria Alice Setubal, coordenadora do programa de governo do PSB, é um dos casos clássicos de oportunismo eleitoral na literatura política. Entre as várias tentativas de desconstruir Marina Silva, o PT diz agora ter encontrado a mais eficiente: explorar a relação da candidata com a acionista do Itaú. A campanha da presidente Dilma Rousseff passou a demonizar Neca Setubal, criando um enredo de ficção no qual “banqueiros” malvados tomarão conta do Brasil caso Marina vença. O objetivo é disseminar o medo e colar na ex-ministra o rótulo de candidata dos bancos.

A estratégia do PT é oportunista e desonesta. Quando lhe interessava, na eleição de 2012, o PT usou o nome da “banqueira”, que até então chamava de “educadora”, para alavancar o candidato Fernando Haddad, que patinava nas pesquisas de intenção de voto. Em maio daquele ano, o diretório municipal do partido organizou um encontro chamado “Desafio da Educação nas Metrópoles”, para o qual convidou Neca Setubal como especialista em educação – e não como “banqueira do Itaú”. Depois, ela foi chamada para colaborar com o programa de governo de Haddad nessa área.

Em outubro daquele ano, Neca Setubal assinou uma carta de apoio a Haddad. O manifesto foi divulgado pela campanha do PT como um grande ativo eleitoral, em um encontro chamado de “Ato dos Intelectuais, Artistas e Educadores com Fernando Haddad”. Neca foi convidada para falar sobre o candidato petista pela equipe do mesmo João Santana que agora coordena os ataques à “banqueira”.

Com a vitória de Haddad, veio o convite para ela ser secretária de Educação do novo governo do PT. Mais uma vez, ninguém no PT mencionou as ações do Itaú. O fato de ela ser ligada ao banco só era mencionado pelos petistas nos bastidores como uma forma de mostrar que a candidatura de Haddad contava como uma boa garota propaganda entre o eleitor de alta renda.

Em 2012, Neca já era acionista do banco, já era filha de Olavo Setubal, já vinha de uma família de banqueiros. O que mudou de lá para cá? Naquele momento, não interessava ao partido bater nela, mas sim usá-la como uma intelectual com trânsito no eleitorado mais resistente ao PT. Agora, na urgência para derrubar Marina, a ordem é tornar a educadora de ontem numa ardilosa “banqueira” hoje.

Além de oportunista, a estratégia do PT é desonesta. A participação de Neca Setubal como colaboradora de Marina não guarda relação nenhuma com o poder de influência dos bancos num eventual governo do PSB. Os bancos têm e sempre tiveram influência nas administrações, vide os US$ 20,5 bilhões que as quatro principais instituições financeiras do País lucraram em 2013, em pleno governo Dilma. É ingênuo achar que o Itaú ou qualquer outra instituição precise de uma herdeira, que não acompanha o dia a dia dos negócios do banco e que sempre se dedicou à vida acadêmica e ao terceiro setor, para defender seus interesses.

Pela régua usada pela campanha do PT, Dilma estaria mais suscetível a influências do setor financeiro do que Marina. Afinal, sua campanha recebeu neste ano R$ 9,5 milhões dos bancos contra R$ 4,5 milhões doados à campanha de  Marina. Um pecado mortal para a associação banqueiro-candidato que o PT agora dissemina como terror.

Marina defende a autonomia do Banco Central. Foi corajosa ao assumir uma proposta polêmica, e os adversários têm todo direito de criticar a ideia. Mas isso não tem nada a ver com a atuação da “banqueira” na sua campanha. Tentar vincular uma coisa a outra é uma estratégia torpe e desesperada. O PT subestima o eleitor quando age dessa maneira.

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