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Manual de Embromação Eleitoral

Julia Duailibi

06 de agosto de 2014 | 05h54

Caro (a) candidato (a),

Problemas administrativos de sua gestão não são mais um empecilho para alcançar a tão almejada reeleição. O (a) senhor (a) pode usar as adversidades a favor de sua campanha. Basta seguir o roteiro de sete passos do Manual de Embromação Eleitoral e certamente obterá resultados excelentes na eleição de outubro.

1)      Escolha uma fragilidade de sua gestão. Deve ser um tema de relevância e repercussão na sua alçada administrativa. Pode ser uma CPI instalada no Congresso para investigar desmandos de uma grande empresa estatal ou uma crise de abastecimento em algum setor estratégico, como, digamos, o de água;

2)      Ignore as práticas da transparência e a legislação vigente. Em ano eleitoral, se for segui-las, poderá se dar mal. Há o risco de o eleitor entender a gravidade do problema, e o (a) senhor (a) perder votos;

3)      No caso da CPI, nada pode fugir do seu controle. Coordene os depoimentos dos diretores da estatal convocados para prestar esclarecimentos, mas não deixe os eleitores perceberem. Peça a sua equipe que crie as perguntas a serem feitas por sua tropa de choque na CPI e, depois, vaze essas perguntas aos depoentes. O eleitor assistirá aos depoimentos e fatalmente será convencido de que todas as denúncias a respeito da estatal não passaram de uma armação da oposição;

4)      Na crise de abastecimento de água, evite a todo custo adotar oficialmente o racionamento – e, principalmente, evite usar essa palavra. Pode ser matador em ano eleitoral. Mas, se a situação for crítica, o (a) senhor (a) pode recorrer ao racionamento branco, mas não deixe os eleitores perceberem. Controle a pressão da água à noite e corte o fornecimento em alguns bairros. Lembre-se: para essa estratégia dar certo, negue veementemente a adoção do racionamento;

5)      Agora, vem a parte mais crítica. Quando confrontado (a) com as medidas tomadas visando o sucesso eleitoral, o (a) senhor (a) terá de ser firme. Certamente será questionado (a) por sua ação na CPI ou na crise de água. Aqui, o ideal é atacar os adversários. Use expressões como “exploração política”. Fale da “turma do quanto pior melhor”. Negue que haja qualquer “escândalo”, mas diga, para acalmar os ânimos, que qualquer irregularidade será investigada. No caso específico da crise de água, o (a) senhor (a) pode ainda dizer que o problema é de São Pedro.

6)      Depois de seguir à risca o manual, aguarde a repercussão. O (a) senhor (a) será atacado (a) por setores da imprensa e por alguns eleitores que perceberão a estratégia. Mas seja firme. Repita as respostas sempre que puder. Com certeza, aos poucos, as pessoas vão se acostumar com elas e não desconfiarão mais.

7)      Espere outubro para colher os benefícios eleitorais dessa estratégia. Se o País ruir ou se seu Estado secar, que é que tem? Você já está eleito (a) e, afinal de contas, tudo não passa de intrigas da oposição.