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Manifestações de junho: de protagonistas a figurantes

A eleição de hoje é o triunfo da polarização PT-PSDB, que ameaçava se esgarçar um ano e quatro meses atrás; Dilma e Aécio chegaram à final eleitoral com o mesmo embate ideológico e modus operandi dos últimos 20 anos

Julia Duailibi

26 de outubro de 2014 | 11h22

Análise publicada no Caderno de Eleições do Estadão hoje.

“Protestos se espalham e políticos viram alvo”; “‘Contra tudo’ e por mudanças milhares vão às ruas”; “Um País que se mexe: o Brasil nas ruas”; “A nova cara do Brasil”. Em 18 de junho de 2013, os jornais estampavam nas manchetes as manifestações que, na véspera, tomaram as ruas.

Deflagrados como movimento contra o aumento da tarifa de ônibus, os protestos passaram a aglutinar demandas distintas. As pessoas reclamavam não só da qualidade dos serviços públicos, mas da corrupção, dos partidos e “de tudo de ruim que está aí”.

O ponto comum daquele encontro multifacetado era a insatisfação, um tal “sentimento difuso” que logo encontrou um alvo preferencial: a política institucional. Símbolos do poder foram atacados. Os governantes viram sua popularidade derreter da noite para o dia. Na tentativa de explicar o que se via nas ruas, falou-se em “crise de representatividade”, “fim dos partidos” e “negação da política”.

Os políticos passaram a temer o poder da guilhotina nas urnas. Revezando-se no Planalto desde 1994, petistas e tucanos sabiam que, se a Bastilha caísse, seriam os primeiros a perder as cabeças. Para salvá-los, marqueteiros tiraram das cartolas propostas que falavam em mudança, como plebiscitos, novos programas sociais e pacotes de boas intenções.

Os ecos dos protestos de 2013 bateram à porta da eleição de 2014, catalisados por uma economia que patinava: oito em cada dez eleitores continuavam a clamar pelas mudanças. A ex-ministra Marina Silva (PSB), que em 2010 apresentou-se como alternativa à polarização PT-PSDB, era quem melhor vestia o figurino, depois que foi alçada candidata com a morte de Eduardo Campos.

Sua retórica da nova política reverberava no eleitor que foi às ruas. Marina arrancou votos de Dilma Rousseff e de Aécio Neves e levou indecisos que não viam nem PT nem PSDB como opções. Mas a nova política não resistiu a um mês de escrutínio. Marina foi triturada pela velha política, com a ajuda da inconsistência de seu discurso, da volatilidade de suas propostas e da incoerência de suas alianças. PT e PSDB fizeram das suas fragilidades uma avenida. Com campanhas milionárias, marqueteiros gabaritados, militância organizada, estrutura de governos País afora, enfim, todos mecanismos mais convencionais da política, desconstruíram a candidata que tentava representar os desejos de junho de 2013.

Dilma e Aécio convenceram o eleitor de que, para mudar, era melhor abandonar o flerte com o desconhecido. Com Marina fora de campo, PT e PSDB asseguraram o confronto de sempre, sem sequer apresentar algo novo ao eleitor. O debate no 2.º turno foi mais do mesmo: ataques, comparações, distorções, mais ataques, paternidade de programas sociais, corrupção, ataques de novo. De junho de 2013, não sobrou quase nada. Talvez, apenas, a barba por fazer dos jovens atores que apresentavam a propaganda eleitoral, tentativa de dar nova roupagem às mesmas ideias.

A eleição de hoje é o triunfo da polarização PT-PSDB, que ameaçava se esgarçar um ano e quatro meses atrás. Dilma e Aécio chegaram à final eleitoral com o mesmo embate ideológico e modus operandi dos últimos 20 anos. Os protestos de junho de 2013 ameaçaram ser protagonistas da eleição de 2014, passaram a coadjuvantes e terminaram como figurantes – com a barba por fazer.

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