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Ex-assessor de Alckmin critica medidas anunciadas por secretário para poupar água

Produtor rural, Frederico d'Avila afirma que governo deve adotar uma política emergencial que estimule o armazenamento de água pelos agricultores e critica a indicação de político para a pasta da Agricultura

Julia Duailibi

23 de janeiro de 2015 | 14h57

Ex-assessor especial do governador Geraldo Alckmin (PSDB), entre 2011 e 2013, o produtor rural Frederico d’Avila critica as medidas que foram anunciadas nesta semana pelo secretário estadual de Agricultura, Arnaldo Jardim, como resposta à crise de abastecimento de água no Estado.

Em entrevista ao Valor Econômico, publicada ontem, Jardim disse que até o final do mês o governo deve anunciar uma restrição ao uso de água na agricultura irrigada, medida que deve afetar produtores responsáveis pelo abastecimento de 50% dos hortifrúti de São Paulo. Ao Estado Jardim afirmou que os produtores terão de se adequar às normas de restrição no uso de água para irrigação.

“O governo precisa começar ontem uma política de armazenamento de água em propriedade rural. Emergencialmente, deve empreender esforços para incentivar o armazenamento de água. O produtor rural já está acostumado a pagar a conta,  porque é ele o responsável por manter a balança comercial brasileira no campo positivo. Mais uma vez estão colocando o produtor rural para pagar uma conta que não é dele”, afirmou d’Avila.

“Acredito que o secretário não tem conhecimento técnico nem vivência como produtor para falar sobre saídas”, disse d’Avila. “Quando se politiza a secretaria e a usa como moeda de troca política, corre-se o risco de o representante falar coisas que não condizem com a realidade do setor”, completou em referência a Jardim, que é deputado federal e assumiu o posto por indicação do PPS.

Qual sua opinião sobre as declarações do secretário?

O governo não agiu no passado em relação à questão do armazenamento de água. Não foi feito um trabalho junto ao produtor, com o objetivo de aumentar o estoque de água. Muitos produtores que tinham a intenção de armazenar água, em represas, tanques ou cisternas, esbarraram em problemas da legislação ambiental estadual e em entraves colocados pela Cetesb.

Qual trabalho deveria ter sido feito?

O governo deveria ter acatado as demandas do produtores na questão do estoque e armazenamento de água sem criar entraves no campo ambiental. Os produtores precisavam ter construído represas ou açudes, por exemplo. Então, teriam que ter feito obra, terraplanagem, cortar árvore. Mas poderiam repor as árvores em outros lugares. Falta uma política rápida e clara: se você vai estocar água aqui, vai compensar ali. A legislação não é clara. É burocrática. E, sem celeridade, os produtores ficam com medo de recorrer ao órgão, chamar a atenção e acabar tomando uma multa.

Armazenar é um bom  negócio, seja para o produtor, seja para o Estado. Temos que armazenar aqui para compensar ali. É isso que precisa ser claro.

Mas dada a situação dos reservatórios o governo deve priorizar o consumo humano.

Algo deveria ter sido feito nos últimos 20 anos de governo do PSDB. Os produtores deveriam ter recebido estímulo para armazenar água. Armazenamento de água nunca é demais. Mas sempre esbarra na parte ambiental. O governo deveria propor para o produtor de todas as áreas uma política de armazenamento rápida, para que se possa aproveitar o período das chuvas para estocar a água. Se deixar para analisar ao longo do ano, a questão ficará para o próximo verão.

Armazenar água sem chuva?

Chove de maneira mal distribuída. Todas as cabeceiras levam a grandes rios. Se armazenar onde está chovendo, já se garante alguma coisa. Podemos zerar o déficit hídrico no Estado para a agricultura irrigada.

Dá tempo de fazer isso agora?

Temos que aproveitar os 90, 120 dias de chuva. Campinas é a terceira maior cidade do Estado e não tem reservatório de água. Estoque de água é a poupança, é uma espécie de previdência que populações fazem durante período de chuva para enfrentar a seca. O governo precisa começar ontem uma política de armazenamento de água em propriedade rural. Emergencialmente, deve empreender esforços para incentivar o armazenamento de água. O produtor rural já está acostumado a pagar a conta, porque é ele o responsável por manter a balança comercial brasileira no campo positivo. Mais uma vez estão colocando o produtor rural para pagar uma conta que não é dele. 

Estimativas apontam que a restrição para a irrigação deve atingir 3 mil propriedades rurais. Qual impacto econômico disso?

Não dá para saber. Os hortifrúti são culturas de alta demanda hídrica e curto desenvolvimento. Exigem muita água. Com a restrição, os preços vão subir violentamente. Eles vão deixar de ser cultivados no entorno da capital. Passarão a vir de longe, com qualidade pior e preço maior. Quanto mais viajam, mais se deterioram. O consumidor também vai pagar essa conta.

O secretário disse que está buscando uma alternativa que atinja menos agricultura.

O incentivo ao armazenamento de água é a única alternativa que funciona. Acredito que o secretário não tem conhecimento técnico nem vivência como produtor para falar sobre saídas. Ele falou em substituir pivôs (que giram em torno de um eixo central) por gotejamento ou microaspersão (que fazem irrigação localizada). Mas cada cultura precisa de um sistema diferente de irrigação. Ele não é engenheiro agrônomo nem produtor rural. Desconhece que determinadas culturas precisam de pivôs, e outras de microaspersão e gotejamento. Não dá para substituir uma por outra. O produtor não vai usar algo que seja menos eficiente para a sua realidade.

Só o produtor sente na pele os problemas dos produtores. Os secretários anteriores que eram produtores, como Duarte Nogueira e João Carlos Meirelles, sabiam dos problemas. Assim como a secretária Mônika Bergamaschi, que não era produtora, mas engenheira agrônoma e que tinha grande sensibilidade com o tema. Agora, quando se politiza a secretaria e a usa como moeda de troca política, corre-se o risco de o representante falar coisas que não condizem com a realidade do setor.

 

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