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Entrevista de Marta é sinal amarelo para Haddad

Além de evidenciar as pretensões políticas de Marta para 2016, a entrevista da senadora revela muito da maneira como Lula opera: um discurso para cada público

Julia Duailibi

12 de janeiro de 2015 | 12h56

A entrevista da senadora Marta Suplicy (PT-SP), concedida à jornalista Eliane Cantanhêde e publicada ontem no Estado, acende o sinal amarelo para o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT). 

As declarações de Marta são saborosas ao revelar muito dos bastidores, das picuinhas e da vaidade no PT, inclusive a dela mesma, que sem espaço no partido resolve sair batendo o pé. Mas a principal mensagem política da entrevista não está no que Marta fala abertamente, mas nas entrelinhas dos seu discurso. A senadora se movimenta com um objetivo claro, voltar a ser candidata a prefeita em 2016. Para isso, prepara sua saída do PT, criando argumentos não só para a opinião pública e eleitores, mas principalmente para a Justiça Eleitoral. 

O PT paulista vê com apreensão a entrada dela na eleição do ano que vem. A ex-prefeita tem grande inserção na periferia, onde está a sua força eleitoral (principalmente no extremo sul da cidade). A avaliação e a gestão de Haddad nos extremos da capital seriam frágeis, na avaliação de petistas. Falta uma grande bandeira na região onde estão os eleitores que deram vitória ao PT em 2012. Faltam também programas e mais presença do prefeito por lá, dizem integrantes do partido.

Há ainda outro complicador para Haddad em 2016: Celso Russomanno (PRB). Eleito deputado, ele quer ser prefeito, e a votação em 2014 mostra grande entrada justamente nessas regiões periféricas da capital. Marta e Russomanno podem desidratar o potencial eleitoral de Haddad nos extremos da capital, dificultando a vida dele na eleição, já que o centro expandido da cidade costuma ser mais crítico ao PT.

Haddad, porém, começou a se movimentar e a “fazer política como gente grande”, segundo um petista, ao convidar o deputado Gabriel Chalita (PMDB) para a Secretaria da Educação  – umas das principais críticas de setores do PT a Haddad é que ele não cedeu espaço para o partido na máquina, o que é rebatido por aliados na Prefeitura, que afirmam ser essa uma qualidade do prefeito de não ceder à “politicagem”.

Com o convite a Chalita, o prefeito amarrou o PMDB no seu quintal e, de certa forma, colocou o partido aliado – e o seu tempo de TV – embaixo da sua asa na eleição de 2016 (sem contar que praticamente inviabilizou a ida de Marta para a legenda).

Para a senadora, sobra agora o Solidariedade, de Paulinho, da Força Sindical, o que não garante a ela muito tempo de TV.

Ciente dessa conjuntura, Marta busca se posicionar de olho no seu futuro político. E faz a operação do seu modo. Na entrevista, mostrou sinceridade, mágoa e também um baita de um ego ferido, de quem chegou a pensar que poderia ser a candidata a presidente da República pelo PT.

Marta usou as informações de que dispunha e carregou na tinta quando a interessava. Falou de “desmandos” num governo do qual participou até outro dia. Criticou petistas como o ministro Aloizio Mercadante (briga antiga) e o presidente do partido, Rui Falcão, que foi seu braço direito enquanto prefeita (a relação com ele se deteriorou durante a campanha eleitoral de 2014, quando ele mandou que ela saísse de um veículo no qual Dilma faria uma carreata pela zona sul paulistana).

A senadora falou que Lula não foi candidato porque “não quis enfrentar a Dilma”, quando a situação foi outra. Lula não foi candidato porque não quis. Ele sabia que o eleitor receberia mal a mudança e havia o risco de perder, o que colocaria todo seu cacife político por água abaixo.

Marta também falou que providenciou encontros com empresários e artistas “para Lula poder se colocar” e que “listou pessoas com quem ele poderia conversar” sobre candidatura, como se o petista não tivesse autonomia nem cacife político para preparar o terreno para uma candidatura, se de fato tivesse essa intenção.

Além de evidenciar as pretensões políticas de Marta para 2016, a entrevista revela muito da maneira como Lula opera. Um discurso para cada público. Inclusive para Marta.

 

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