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Em meio à crise hídrica, Sabesp vê ‘fartura’ de água e dispensa ‘economia excessiva’

Presidente da empresa fala em sofrimento desnecessário da população, mas declarações evidenciam preocupação com queda na receita da companhia

Julia Duailibi

27 de março de 2015 | 05h26

Em evento na Fiesp na terça-feira, o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, disse haver regiões no Estado em que não existe a necessidade de poupar água. Afirmou ainda que “ninguém quer dar um incentivo à população a economizar excessivamente”.

“Estamos discutindo. Vamos eliminar o bônus onde não tem necessidade de economizar. Ninguém quer sacrificar. Ninguém quer dar um incentivo à população a economizar excessivamente”, declarou Kelman. “Ninguém quer que alguém sofra se não for necessário. Então, a sinalização de que a água é escassa em alguns lugares começa a deixar de ser necessário”, afirmou o presidente da Sabesp ao citar a região da bacia do Piracicaba como um dos locais onde deve deixar de valer o desconto na conta de água para quem diminuir o consumo.

A declaração de Kelman passou quase batida. Mas é chocante que o presidente da Sabesp diga que “a sinalização de que a água é escassa em alguns lugares começa a deixar de valer”. Não. Água continua sendo escassa, é um bem finito. Portanto, a “sinalização” a qual ele se refere deveria continuar valendo. Deveria ser uma política permanente, se não quiser contar com a ajuda de São Pedro. “Sinalizar” que a água tem de ser poupada é política pública das mais óbvias, principalmente depois do sistema de abastecimento do Estado ter praticamente entrado em colapso – isso se ainda não entrar.

Por outro lado, o próprio presidente da Sabesp admitiu que “usar água com parcimônia é uma receita para sempre”. Então, por que não manter o bônus para incentivar as pessoas a adotarem essa “receita para sempre”? O próprio governo paulista sempre disse que mexer no bolso da população era a melhor forma de levar as pessoas a pouparem.

As declarações de Kelman parecem ter relação com a situação financeira da Sabesp, e não com uma suposta preocupação com o “sofrimento” a que estaria submetida a população com a economia de água. Em 2014, a empresa implementou a política de concessão de desconto de até 30% na conta de quem poupasse 20%. Isso derrubou a receita da Sabesp em R$ 1,5 bilhão. Em março, a companhia pediu autorização à Arsesp para reajustar a tarifa numa tentativa de arrumar o caixa.

A empresa vive da venda de água. Se incentivar a economia, menos água vende, menos receita tem e menos lucro distribui para os acionistas. Kelman disse que uma coisa não tem a ver com a outra. “Isso não é um dos motivos. O que talvez faça sentido é eliminar o bônus onde ele não é necessário. Há áreas em que há fartura de água”, votou a dizer.

Apesar da negativa de Kelman, as demonstrações financeiras da empresa parecem ainda ditar a política da Sabesp. Em tempos de fartura e em tempos de escassez.

 

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