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Eleição ‘precificada’ e o paradoxo Dilma

Julia Duailibi

08 de abril de 2014 | 15h37

O mercado financeiro começou a “precificar” uma probabilidade maior de derrota da presidente Dilma Rousseff (PT) na eleição de outubro. Relatórios de bancos e consultorias enviados a clientes ontem e hoje, na esteira da divulgação das pesquisas Ibope e Datafolha, já ponderam um cenário de vitória da oposição, embora ainda coloquem a petista como favorita.

Aliada a outros fatores, como ação do Banco Central no mercado vendendo dólares, essa avaliação impactou o câmbio e, principalmente, o preço das ações das estatais. Ontem, após divulgação do Datafolha no final de semana, a bolsa fechou com alta de 2%, e o dólar recuou para o menor patamar em cinco meses, com queda de 1,2% – hoje o dólar segue em queda acompanhando o mercado internacional.

O banco de investimentos Brasil Plural calculou a probabilidade que os investidores dão ao cenário de vitória de Dilma em outubro. “Nós estimamos que o preço da ação da Petrobras está baseado numa probabilidade de 75% de Dilma vencer a eleição de outubro”, afirmaram analistas em relatório enviado ao mercado hoje, no qual dão peso de 25% ao cenário de derrota. O papel da Petrobras, que hoje vale R$ 15, passaria a R$ 29 se Dilma perder a eleição. Em caso de vitória, estimam, cairia para R$ 12 – há pouco ações da Petrobras começaram a cair, após declarações de Lula de que o PT tem de defender a empresa com “unhas e dentes“.

Desde meados de março, quando começaram os rumores de que o governo Dilma perderia popularidade, ações de estatais dispararam: Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil valorizaram cerca de 35%, 33% e 30%, respectivamente. De acordo com um paper do Citi  divulgado hoje, uma das razões que levaram à valorização dessas ações nas últimas três semanas foram “as pesquisas eleitorais mostrando um crescimento da chance de mudança de governo”.

“O mercado estava precificando a zero a chance de alternância de poder, mas agora está precificando uma boa probabilidade”, diz um economista de um banco estrangeiro ao explicar a movimentação da Bolsa e do dólar nos últimos dias. Os investidores ajustaram suas posições a essa probabilidade, ainda que pequena.

E é aí que ocorre um paradoxo. O mau humor do mercado com Dilma influencia positivamente a Bolsa e o dólar, quando ela cai nas pesquisas. Mas Ibovespa alto e dólar baixo ajudam quem? O candidato governista, ou seja, Dilma. Uma eventual melhora no ambiente econômico, principalmente na inflação, amparada pela queda do dólar, tem reflexo direto na popularidade da presidente. “O dólar baixo pode eleger Dilma”, comenta um economista de um fundo de investimento. Para qualquer candidato governista, é muito melhor enfrentar uma campanha com o Ibovespa nas alturas e o dólar no subsolo, do que o contrário. Que o diga José Serra, candidato do governo Fernando Henrique Cardoso, na eleição de 2002.

Naquela disputa, os sinais eram invertidos. A cada avanço da oposição, capitaneada por Lula, o mercado tremia, ajudando a contaminar ainda mais o ambiente econômico, que já sofria com os efeitos de uma crise financeira internacional.  “Começou uma espécie de especulação pré eleição, mas, ao contrário de 2002, ela é positiva à medida que a situação do atual governo piora”, afirmou o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências, em reportagem publicada no Estado hoje.

Com os candidatos de oposição ainda desconhecidos, o mercado baseia seu otimismo na queda da aprovação do governo – mais do que no índice de intenção de voto. “A essa altura esses números (de intenção de voto) são menos importantes para fazer um prognóstico da eleição que o índice de aprovação da presidente”, avaliou em relatório ontem a Eurasia, consultoria em risco político.

Há uma semana o banco de investimento Morgan Stanley soltou breves perfis elogiosos de Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). No caso do tucano, destacaram como fator positivo a proximidade com Arminio Fraga, presidente do Banco Central no governo FHC e um “crítico da política econômica atual”. Ao apresentar Campos, colocaram como uma qualidade do pré-candidato declarações “simpáticas ao mercado”, entre as quais a defesa da independência do Banco Central e as críticas à influência política na Eletrobrás e Petrobras.

Semelhanças – Se por um lado o mercado age de maneira diferente na eleição deste ano, as disputas de 2002 e 2014 guardam algumas semelhanças. Talvez a mais visível delas seja o sentimento de mudança. De acordo com o Datafolha, 72% dos eleitores querem que o futuro presidente atue de maneira distinta da de Dilma. O cenário era parecido há doze anos, quando o oposicionista Lula enfrentou o governista Serra. Tanto que, à época, o tucano adotou o slogan “continuidade sem continuísmo”.

Agora o presidente do PT, Rui Falcão, recicla a ideia ao lançar o “continuidade com mudança” ou “mudança com continuidade”. No começo de 2014, as pesquisas mostram que o eleitor ainda acha que Lula ou Dilma são mais indicados para promoverem as mudanças que Aécio Neves ou Eduardo Campos. Mas isso tende a mudar, com maior ou menor intensidade, conforme o eleitor conhecer as demais candidaturas.

Em 2002, a retórica eleitoral governista naufragou. Em 2014, caberá a João Santana, para desgosto do mercado financeiro, fazer essa máxima de Falcão colar.