As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Conversa para boi dormir

Julia Duailibi

19 Abril 2013 | 14h41

Ontem, Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, disse que nunca ouviu falar que “fidelidade partidária é oportunismo”. “Quando começamos o nosso partido, fizemos um longo caminho até a primeira eleição”, disse  Carvalho ao tentar defender o projeto de lei que limita a atuação de novas siglas, restringindo o acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de televisão. “Dizer que defender a fidelidade partidária é um casuísmo é absolutamente descabido”, completou Carvalho.

Descabida parece a posição do governo, que oficialmente diz não estar por trás da articulação no Congresso do PT e do PMDB para barrar o avanço das novas siglas – conforme comentei neste blog anteontem, a ministra Ideli Salvatti ligou diretamente para presidentes de partidos da base para saber como suas legendas iriam votar a questão.

Quando interessava ao Palácio do Planalto criar um novo partido para enfraquecer a oposição, ninguém ouviu um só ministro vir a público com o discurso “republicano” da fidelidade partidária. O governo deu até uma mãozinha para sair do papel o partido de Gilberto Kassab, o PSD, porque interessava ao Planalto. Rachava a oposição, desidratando principalmente o DEM. O PSD nasceu forte, com direito a recursos do Fundo Partidário e tempo de televisão. Silêncio no Planalto.

Agora, que não interessa ter no caminho uma candidatura em 2014 que possa rivalizar com Dilma, como a de Marina Silva (Rede) ou a de Eduardo Campos (PSB), que deve receber o apoio do MD (Mobilização Democrática), criado por Roberto Freire, começa a se ouvir do Planalto um mantra em defesa do fortalecimento do sistema partidário. Desculpe, mas soa, sim, como oportunismo político.

A criação de novas legendas, no País, no geral serve para fortalecer o comércio eleitoral, baseado numa única moeda: tempo de televisão. Cria-se um partido, recebem-se alguns minutos de propaganda no horário eleitoral no rádio e na TV, que depois são mercantilizados pelos donos desses mesmos partidos com as tradicionais legendas, que têm recursos para bancar essa compra. O pagamento às vezes é até contabilizado, travestido de “doação” para a chapa de vereadores da sigla que deu o seu tempo de TV. Mas muitas vezes a fatura é paga extraoficialmente, sabe-se lá de que maneira. Esse comércio leva a alianças bizarras, e é claro que deve ser alvo de uma discussão sobre uma reforma política ampla.

Mas, infelizmente, não é isso que está na pauta do dia do Planalto, que se preocupa com uma única coisa, a reeleição da presidente Dilma Rousseff. A suposta preocupação com a fidelidade partidária, defendida bravamente por Carvalho, é conversa para boi dormir.