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Choque de realidade

Julia Duailibi

19 de setembro de 2014 | 00h34

Publicado no Estadão Noite.

O candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva (PSB), Beto Albuquerque, afirmou ontem que “ninguém governa sem o PMDB”. Beto, que tem quatro mandatos de deputado federal, conhece bem o funcionamento do Congresso brasileiro e falou um fato que todo mundo está cansado de saber, mas que durante a campanha eleitoral os candidatos preferem contemporizar. Deu uma declaração mais lúcida que Eduardo Campos, dono do discurso de que queria acabaria com as velhas raposas da política, mas que na prática, quando governador de Pernambuco, as manteve em seu quintal.

Durante a entrevista ao Estado, Beto fez uma ponderação sobre a relação com o PMDB: “Não é preciso entregar o governo ao PMDB para ter governabilidade”. Usou o verbo “entregar”, e não, por exemplo, “empregar”, porque sabe que terá de contar com o partido para fazer com que o governo ande, caso ele e Marina sejam eleitos.

Com o primeiro turno se aproximando, e Marina se consolidando como a candidata a enfrentar Dilma no segundo turno, crescem os questionamentos a respeito da governabilidade numa eventual administração do PSB. Marina contribui para isso ao não explicar como formará uma maioria apenas com os “melhores de cada partido”, sendo que os próprios partidos têm mandado recados de que, por enquanto, não se animam em ceder seus quadros de “excelência”. No mundo real, os governos FHC, Lula e Dilma não conseguiram governar só com os melhores quadros. Fecharam em bloco com o PMDB e levaram todo o resto junto.

Na sexta-feira passada, Aécio disse que se perder a eleição o PSDB deve caminhar para a oposição. Não falou nada em liberar os “melhores quadros”. O ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) também disse que Marina não pode esperar governar com os melhores de cada partido. “Esse é um erro grave que a Marina está fazendo. Ela não vai conseguir sair pinçando e destruindo dos partidos.”

O jornalista Josias de Souza, em seu blog hoje, revelou o clima das velhas raposas com Marina, ao publicar trechos de um artigo escrito pelo senador José Sarney (PMDB-AP) para o El País.“Marina Silva é uma incógnita. A figura de hoje nada tem a ver com sua radical história de guerreira dos seringais. Senadora por dezesseis anos — em parte dos quais ocupou o Ministério do Meio Ambiente de Lula —, deixou uma marca de radicalismo, como fundamentalista, de capacidade limitada, preferindo sempre a confrontação ao diálogo, e buscando não o entendimento, mas a conversão.”

O vice- presidente, Michel Temer, também afirmou na semana passada que se o PSB ganhar “a primeira ideia é que (o PMDB) fique na oposição”.  Tudo bem que a frase de Temer deixa uma porta aberta para negociação ao falar em “primeira ideia”, mas também mostra que Marina terá de negociar e que não há alinhamento automático.

Beto Albuquerque deu indícios de que deve, sim, buscar no velho governismo a sustentação para um eventual governo. Tocou a real, enquanto Marina continua a tergiversar sobre o assunto.

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