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Ataques calculados

Julia Duailibi

28 de agosto de 2014 | 12h13

A pesquisa Ibope divulgada ontem, que coloca Marina Silva (PSB) na frente de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno da disputa presidencial, tornou a ex-ministra do Meio Ambiente o maior alvo da eleição de 2014. Numa leitura mais imediata, Aécio Neves (PSDB) e Dilma partiriam para o ataque, sem dó nem pena, contra a adversária. Mas não é bem assim. A operação de “desconstrução” de Marina tem custos, e as duas campanhas adversárias trabalham agora com certa cautela no manuseio da artilharia.

Tucanos e petistas têm interesse em desconstruir a candidatura de Marina. Juntos, numa espécie de acordo tácito, usam do mesmo discurso, segundo o qual Marina não seria capaz de conduzir o País para as mudanças que o eleitor quer – conforme mostrou José Roberto Toledo hoje, a candidata do PSB tem o melhor desempenho nas intenções de voto entre os “mudancistas”. Enquanto Marina prega o fim da polarização entre PT e PSDB, tucanos e petistas querem mais é reeditar essa polarização, certos de que será mais fácil derrotar uns aos outros do que lidar com a onda marineira.

Ocorre que PSDB e PT sabem que criticar Marina e expor suas fragilidades é uma operação cirúrgica que requer habilidade e cuidado – inclusive testes com grupos de eleitores em pesquisas qualitativas. Em primeiro lugar, porque o eleitor costuma reagir mal ao candidato que faz ataques pessoais. Depois, porque Marina é muito bem avaliada pelo eleitor, tem uma baixa taxa de rejeição e se apresenta como alguém que quer fugir da política convencional: o ataque dos adversários pode sublinhar neles a pecha da velha política.

Dilma e, principalmente, Aécio, que tem uma urgência maior na disputa com Marina pela vaga no segundo turno, terão de dosar bem as críticas, travestindo-as com um discurso mais amplo sobre competência e não personalizando os ataques. Uma estratégia comum nas eleições para blindar os candidatos do efeito negativo das críticas é recorrer a um boca de aluguel que assuma a missão de atacar, muitas vezes por questões que passam ao largo da ideologia. É comum ver nos debates candidatos nanicos mirando determinado candidato. Geralmente, quando isso acontece, há nos bastidores um acordo com um grande partido. Basta ver quem é o beneficiado dos ataques para descobrirmos quem encomendou o trabalho.

Na eleição de 2010, o candidato do PSDB, José Serra, contou com a ajuda de setores da igreja católica e alguns líderes evangélicos, como o pastor Silas Malafaia, para atacar Dilma, em uma campanha que a associava à defesa do aborto. O candidato se expôs pouco nas críticas, mas teve um exército que agiu por ele, na maioria das vezes por identificação ideológica com a campanha tucana.

Desde que foi alçada candidata, Marina foi alvo de ataques que correm solto na internet, de maneira oficiosa, principalmente entre os aliados de Dilma e Aécio. Agora, com o fortalecimento dela nas pesquisas, haverá certa oficialidade calculada nos ataques. Com um cuidado enorme para que o feitiço não vire contra o feiticeiro.