Vargas só dá ao PT a opção de expulsá-lo

João Bosco Rabello

23 de abril de 2014 | 15h39

A novela em que se transformou a questão envolvendo a cassação ou renúncia do deputado André Vargas (PT-PR), ex-vice-presidente da Câmara, é uma sangria que corre ao mesmo tempo de outro enredo desgastante para o governo, o da CPI da Petrobrás.

Vargas desafia abertamente seu partido, que hesita em expulsá-lo, mas protela seu julgamento no Conselho de Ética da Casa, que poderia apressar o processo e atenuar o dano político de mais um caso de corrupção de um quadro expressivo da legenda.

Vargas não tem o perfil histórico nem a biografia política dos dirigentes julgados e sentenciados à prisão no caso do mensalão. Mas, sem dúvida, é um quadro partidário de alto coturno, como demonstra o cargo que exerceu, o segundo em importância na Câmara.

Nenhum deputado chega ao posto sem o aval de seu partido o que, por sua vez, o distingue como um perfil estratégico. Dessa vez, porém, o PT cogita expulsá-lo, desejo já manifestado pela direção do partido.

Resta saber se o fará, pois o que separa a intenção do gesto parece grave, a julgar pela resistência de Vargas. Entre os problemas estão as candidaturas do ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao governo de São Paulo, e da senadora Gleisi Hoffmann, ex-ministra da Casa Civil, ao do Paraná.

Vargas foi flagrado em tráfico de influência em favor do doleiro Alberto Yousseff  no ministério da Saúde, território então sob o governo de Padilha, e era um dos coordenadores da campanha da senadora ao governo estadual do Paraná.

Mas o enredo, tudo indica, é maior e mais danoso. Sua ligação com Yousseff, que também operava na Petrobrás, como ficou demonstrado pela Polícia Federal, o coloca numa teia suspeita de abranger financiamentos de campanhas.

Sua eleição para a vice-presidência da Câmara se deu com mais de 400 votos, uma marca histórica na Casa, o que sugere que sua rede de proteção vai além dos 30 deputados de seu partido que o apoiam abertamente, para se estender por uma legião de parlamentares de outras legendas.

O deputado Zé Geraldo (PT-PA) deu um passo decisivo para cozinhar o processo na Comissão de Ética em banho-maria para tentar que o julgamento de Vargas fique para depois das eleições.

Ao pedir vista do processo, abaixou a temperatura no PT, que insiste na renúncia. Quer evitar o processo de cassação para tirar o caso da agenda negativa que tomou conta do governo e do partido.

O PT, que já expulsou parlamentares pelas suas virtudes (voto em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral que marcou o fim do regime militar, por exemplo), continua sem força para aplicar a sanção àqueles flagrados em corrupção.

A expulsão tem valor legal e também simbólico. O ato equivale a uma declaração pública do partido de condenação do deputado pelos seus atos, o que provocará ainda mais Vargas. A cassação retira esse fator, embora o voto aberto de parlamentares da legenda contra o companheiro, sirva de algum modo como manifestação crítica.

A renúncia, opção majoritária no partido, encerra a novela que vai ao ar todos os dias na Câmara e remete o caso para a primeira instância do Judiciário, fora do alcance do Supremo Tribunal Federal (STF), um trauma definitivo para o PT.

O desenrolar da trama, porém, mostra um Vargas resistente, um PT dependente de sua concordância e hesitante em relação à expulsão – a única forma de se impor ao deputado. Somado ao escândalo da Petrobrás, o caso amplia o desgaste que corrói o patrimônio eleitoral do partido, já abalado pelo mensalão.