Vargas e Petrobrás desmoralizam versão romântica do PT para desvios

João Bosco Rabello

07 de abril de 2014 | 17h00

Desponta como o fio de um novelo maior as relações entre o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), e o doleiro Alberto Yousseff , que vão além do que poderia sugerir o episódio do voo de férias do parlamentar em jato do contraventor.

Vargas é daqueles perfis que sobrevivem anos no parlamento apesar do telhado de vidro de conhecimento dos seus pares. Na medida em que crescem politicamente, se entusiasmam com perspectivas reservadas a biografias menos comprometidas. É quando são apresentados à ficha corrida que construíram.

Vargas já estava sonhando com a presidência da Câmara, desde que o atual ocupante do cargo, o peemedebista Henrique Eduardo Alves (RN), anunciou a decisão de concorrer ao governo de seu Estado, antecipando sua intenção de não disputar uma reeleição para o parlamento.

A denúncia do voo em jato do doleiro, anterior à prisão de Youssef, foi a primeira tesourada nas asas do petista. Ainda na fase de redução dos danos, foi abatido com uma série de conversas gravadas com o doleiro, que não deixam margem a dúvidas: no mínimo, traficava influência no governo de seu partido, valendo-se do cargo.

Vargas era uma questão de tempo. A desenvoltura com que investiu contra o Poder Judiciário, no gesto ofensivo ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, é reveladora da certeza de impunidade que ainda o orientava, apesar das prisões dos mensaleiros.

As digitais do deputado responsável pela área de comunicação do PT não estão apenas no ministério da Saúde, conforme registram as escutas autorizadas da Polícia Federal. É, por ora, onde elas aparecem.

Estão também na construção da rede de mídia, principalmente digital, montada pelo PT para alimentar o noticiário chapa-branca – aquele destinado a disseminar as versões do partido em oposição à mídia independente – por eles classificada de “imprensa golpista”.

Vargas foi um dos que pressionaram pela demissão da ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Helena Chagas, que se recusava a ampliar esse universo de mídia paralela, bancada por recursos públicos e quantificada pela ex-ministra em quase dez mil veículos e blogs.

Vargas alimenta parte dessa mídia através de uma associação de jornais do interior, do Paraná, sua base eleitoral, para a qual canaliza recursos com origem na Caixa Econômica Federal (CEF).

Podado nas suas pretensões de manter o processo, ou ameaçado de perder o duto dos recursos, passou a exigir, com outros que a tempo serão nominados,  a cabeça da ministra. Cedida por Dilma em momento de fragilidade aguda em que precisou ser mais concessiva ao PT.

Vê-se agora que o ardor pelo controle da mídia, mantra do PT, tem intensidade proporcional  aos negócios escusos que o partido desenvolve no âmbito da estrutura administrativa para manter-se no  poder.

É o mesmo enredo do mensalão, que rendeu à imprensa independente as mesmas agressões e tentativas de amordaçamento. O caso, no entanto, é outro: trata-se de desvio de recursos públicos para projeto de permanência no poder, em alguns casos, e de locupletação pessoal, em outros.

Desnecessário dizer que as duas metas formam uma só: a da prosperidade pessoal e financeira que o poder assegura aos que nele conseguem se manter ocultando as operações que sustentam o objetivo.

O problema é a imprensa, essa inconveniente, cujas investigações não estão atreladas a regimentos protecionistas.