Vargas é ameaça mais imediata que a CPI

João Bosco Rabello

09 de abril de 2014 | 18h00

De forma imediata, a situação do deputado Andre Vargas (PT-PR), é ameaça maior ao governo do que a CPI da Petrobrás. Até porque, a ligação com o doleiro Alberto Yousseff, que se sabe agora, íntima, liga  o vice-presidente licenciado da Câmara à empresa que a oposição pretende investigada.

O governo já sabe – talvez soubesse desde sempre -, que empresas fornecedoras da Petrobrás financiaram campanhas de parlamentares do partido e da base aliada, tendo como elo o doleiro e, em alguns casos, Vargas. Algumas campanhas tiveram recursos repassados diretamente por Yousseff, ponte com fornecedores contribuintes que fecharam contratos com a empresa.

Há suspeita também de favorecimento de Vargas a parlamentares para sua eleição a vice-presidência da Câmara, conquistada por uma maioria tão ampla quanto surpreendente, de mais de 400 votos. Nesse caso, estaria, na opinião de muitos parlamentares, caracterizado uma espécie de mensalão ainda por ser descoberto.

A rapidez que o PT impõe para um desfecho que tire Vargas de cena reforça a suspeita de que novas revelações agravem a agenda negativa do partido, já desgastado com a operação para inviabilizar a CPI da Petrobrás.

Ontem a cúpula do PT esteve reunida em Brasília até o final da noite para concluir pela necessidade de levar Vargas a renunciar ao mandato antes que fosse instalada a Comissão de Ética para avaliar seu caso.

Até àquela hora, Vargas mantinha a decisão de limitar seu afastamento a uma licença temporária. O PT conseguiu que o deputado Ricardo Izar (PSD-SP) adiasse para as 14 horas de hoje a instalação da comissão e transferiu para Vargas o prazo da manhã para que renunciasse.

Em São Paulo, em entrevista a blogueiros, o ex-presidente Lula reforçou a postura do partido dizendo que Vargas deve explicações e instou-o a dá-las para que as denúncias que o afetam não contaminassem o PT e, por extensão, o governo.

Há mais para aparecer contra o deputado, só que daqui em diante novas denúncias poderão atingir seus pares. Além disso, a visibilidade do escândalo pode afetar as candidaturas da senadora Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná e do ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao de São Paulo.

Vargas é aliado de Gleisi no Paraná e suas ações em sociedade com o doleiro no ministério da Saúde tiveram a aprovação inicial de Padilha, uma delas suspensa após sua saída da Pasta. As duas candidaturas são de extrema importância para o PT, mais ainda a de São Paulo.

Já a CPI da Petrobrás, contestada pelo governo no Congresso, transformou-se num enredo judicial favorável à estratégia do governo de evitar sua instalação o quanto possível. E, se inevitável atrasá-la com todas as manobras regimentais ao seu alcance.

Torna-se assim ameaça ainda sob controle por algum tempo. É provável que o Supremo Tribunal Federal (STF), juiz agora da pendenga, mantenha a jurisprudência de que CPIs são instrumento de minoria parlamentar para dar preferência à instalação da CPI da Petrobrás nos moldes pedido pela oposição.

Mas ainda assim, o governo tem meios de ganhar tempo para que ela produza o mínimo de danos. Nesse contexto, o ônus de impedi-la é um desgaste político permanente, diário, mas infinitamente menor do que o estrago de sua instalação e funcionamento.

Para a oposição, as denúncias que a expectativa da CPI já produz é um ganho político indiscutível. O noticiário anda paralelo e livre de obstáculos além dos inerentes à investigação jornalística e reforçam a cada dia a suspeita de que a ação de Yousseff na Petrobrás, ainda que indireta, pode revelar um propinoduto eleitoral.

O governo mantém-se, dessa forma, na agenda negativa. A reação de Lula , apesar do tom guerreiro, é defensiva, pois é uma palavra de ordem para que o governo seja blindado da investigação.  Fica claro para o eleitor que o governo teme o que possa vir.