Valério: o melhor para todos é a investigação

João Bosco Rabello

13 de dezembro de 2012 | 13h07

Podem ser absolutamente inverídicas as acusações do publicitário Marcos Valério ao ex-presidente Lula, assim como as demais constantes do depoimento prestado ao Ministério Público e reveladas pelo Estadão nos seus detalhes. Pode o depoimento ser parcialmente verdadeiro, excluindo-se o que diz respeito ao líder maior do PT.

Pode ter uma verdade, duas mentiras, pode ser integralmente mentiroso, pode misturar, à conveniência do depoente, fatos pinçados de um contexto e inseridos em outro, enfim, pode tudo. E a tudo se some ainda a falta de credibilidade de um delinquente, como diz o PT, dando os anéis para preservar os dedos, reconhecendo com a definição a existência sempre negada do mensalão.

São muitas as desvantagens de Valério como acusador, mas tantas possibilidades e dúvidas levantadas pelo seu depoimento, ao invés de razões para desconsiderá-lo, se afirmam como determinantes de investigação.

Afinal, se o evidente objetivo de livrar-se da pena ou de conquistar condições de cumpri-la em segurança, contaminam as acusações, também as justificam plenamente. O horror já vivido na cadeia numa recente prisão, a mesma que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse trocar pela morte, pode levar qualquer um a contar aquilo que ainda não revelara.

E aqui entra a pergunta que o PT repete diariamente desde a publicação do depoimento pelo Estadão: por que só agora Valério resolveu contar tudo isso?

Um dado importante nesse ponto é o de que Valério fez a proposta de delação premiada já condenado, mas antes de definida a sentença, embora já fosse possível prevê-la alta. Guardar revelações importantes para momento estratégico é sempre a conduta do integrante de quadrilhas, caso do publicitário.

Valério perdeu o timing. Acreditou na rede de proteção que lhe fora garantida, até viver a primeira experiência do cárcere. Está apavorado. Mas tanto pode estar mentindo para salvar a própria pele, quanto decidido a ir além do que já contou uma vez constatado que a única rede que lhe apareceu foi a que o pescou para a cela.

A investigação existe para separar verdade e mentira, fato e suposição, e a ninguém é dado o poder divino de fazer tais distinções sem apurar as informações prestadas formalmente a autoridades constituídas.

Insistir no arquivamento puro e simples do depoimento custará a Lula e ao PT a desconfiança permanente sobre ambos e não evitará, provavelmente, que o Ministério Público decida ir adiante. No momento é notória a relação entre a cautela do Procurador-Geral Roberto Gurgel com  o assunto e a conveniência de não permitir que atrapalhe a reta final do julgamento do mensalão.

Portanto, incluir patrimônio político como bem suscetível de tombamento, como pretende o PT em relação a Lula, ao alegar serviços prestados ao País, é mais uma das tolices que o partido acrescenta à já farta coleção fornecida pelos seus dirigentes à nação.

Tombam-se obras, não autores, porque as primeiras permanecem e, ao contrário de seus humanos criadores não têm, por inanimadas, a possibilidade de errar. Suas imperfeições derivam da condição humana de seus autores.

 

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