“Unhas e dentes” em causa própria

João Bosco Rabello

08 de abril de 2014 | 18h10

Ao dar a palavra de ordem de defender “com unhas e dentes” a Petrobras, o ex-presidente Lula acusa o golpe que os escândalos envolvendo a empresa representam para a candidatura da presidente Dilma Rousseff, mas também defende seu legado.

Foi em seu governo que se desenvolveram as operações comerciais da Petrobras que hoje minam a musculatura eleitoral da presidente – à época, coadjuvante na estrutura política do PT, liderada por Lula.

O discurso tem dois públicos distintos – o interno, instigado a lutar uma luta de vida ou morte para evitar a CPI, e o externo, o eleitorado, induzido a acreditar que a ação investigativa da oposição é uma ameaça à empresa-símbolo do país.

A estratégia é tão hábil quanto antiga. Transfere a ameaça que paira sobre o PT e seu governo para a empresa, que passa a ser alvo, então, de um impatriótico ataque daqueles que no passado quiseram vendê-la, conforme a tradução do PT para a quebra do monopólio da Petrobrás no governo Fernando Henrique.

As denúncias, de fato, abalaram a imagem da Petrobras e influenciaram na queda de seu valor de mercado, mas a oposição nada teve a ver com isso. As operações foram postas em suspeição pela presidente Dilma Rousseff e o intervencionismo na estatal responde pelos prejuízos na empresa e na economia do país.

Mas em política vale a versão, como ensinam antigos políticos mineiros. No contexto eleitoral isso é ainda mais verdadeiro. O grande drama do governo mantém-se no dilema de responder por escândalos que ele próprio produziu e a eles deu seguimento por contradições internas.

Há quem veja na manifestação da presidente Dilma em defesa de sua aprovação à compra da refinaria de Pasadena, estopim da crise que deflagrou a CPI, uma forma de mostrar o limite de sua autonomia nas decisões àquela época.

Fica sugerido que o salvo-conduto para que as operações caminhassem foi de Lula ao avalizar as decisões do presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, desde a opção pelo nome de Paulo Roberto, hoje preso, para uma diretoria da empresa.

A recente conversa de Lula com Dilma não trará, nas suas versões, a abordagem desse aspecto da questão, mas é impensável que durante três horas de reunião, a sós, o fato não tenha vindo à tona. Ainda mais com a Petrobras na pauta.

Consta que Lula reiterou o apoio à candidatura de Dilma, mas aplicou-lhe um receituário para que se mantenha viável no cenário da disputa. Entre as medidas sugeridas pelo ex-presidente está a de que Dilma assuma a defesa de seu governo, ela própria, sem prejuízo dos intermediários.

Em outras palavras, defenda a Petrobras também, já que ela está no epicentro da crise. Ao defendê-la estará, por extensão, defendendo a gestão do antecessor, providência indispensável para as chances de reeleição, dado que Dilma é fruto daquele período de sucesso político. Não há revés só para um , caso a casa venha a sofrer abalos incontornáveis. Trocando em miúdos, a Petrobras é escândalo que atinge tanto a um quanto ao outro.

Dilma ontem já foi a campo em cumprimento ao script combinado, com discurso que tenta abdicar da postura defensiva que vem imobilizando as ações políticas de seu governo, para passar ao ataque, também uma recomendação de seu principal cabo eleitoral, conforme Lula se definiu na conversa entre ambos.

O conteúdo do pronunciamento de ontem, porém, é aquém do que pedem as circunstâncias. Dilma limita a uma exploração política usual em períodos eleitorais a articulação oposicionista pela CPI, mas sabe que o risco é bem maior.

É o discurso da rua e que surte seus efeitos. Seria suficiente se não houvesse perspectiva de desdobramento da crise que agora já acrescenta ao seu enredo o envolvimento direto de um parlamentar da cúpula do PT, como mostra seu cargo de vice-presidente da Câmara, ao qual não chegaria sem apoio do partido.

O deputado André Vargas (PT-PR) é um elo maior entre a base aliada, ministérios e estatais, entre elas a Petrobras, origem das investigações da Polícia Federal que flagraram o doleiro Alberto Yousseff, o ex-diretor, Paulo Roberto Costa e, agora Vargas, em ligação direta para expropriação de dinheiro público.