Um zumbi na Esplanada

João Bosco Rabello

06 de setembro de 2014 | 10h53

A demissão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em eventual segundo mandato de Dilma Rousseff, tem dois obstáculos para gerar o efeito desejado de resgatar a confiança do empresariado: é um aceno tardio , que denuncia seu caráter eleitoral e não vem acompanhado da garantia de mudança do modelo econômico.

É uma demissão futura, algo inédito no contexto político brasileiro, que desautoriza o ministro pelo resto desse mandato, e reforça a ideia de que o comando da economia é da presidente da República.

Na verdade, se a demissão de Mantega se traduzisse por mudança de modelo, ela já teria ocorrido antes.

Sempre foi Dilma a porta-voz das convicções do governo quando investiu contra o modelo herdado de Fernando Henrique, mantido por Lula, e desfeito por ela. Sua oposição aos fundamentos do Plano Real vem desde a Casa Civil, de onde considerou o modelo tucano “rudimentar”.

Na presidência, apenas aplicou o que pensava antes como ministra e principal assessora presidencial. E essa é uma das razões para a inutilidade de qualquer discurso presidencial direcionado a reconquistar o mercado.

É evidente que o respaldo de Marina Silva ao modelo do PSDB , que a aproxima do eleitorado tucano e dos empresários, levou Dilma a um gesto mais nítido de compromisso de revisão na economia.

Mas não o fez completo. Sairá Mantega, entrará quem? O substituto será garantia de mudanças ou apenas executará o que pensa a presidente da República? São indagações que o mercado já respondeu com a indiferença a discursos anteriores da presidente na busca de uma reaproximação.

O problema do relacionamento do governo com o segmento produtivo nacional é a desconfiança instalada com sucessivas reafirmações de Dilma de que que não sacrifica desenvolvimento com o combate à inflação, de justificar o intervencionismo e de viver em permanente tentativa de provar que seu modelo econômico é melhor que o anterior.

A subordinação do Banco Central à orientação da Fazenda, após a saída de Henrique Meirelles da presidência da instituição, é também fator de preocupação no mercado. O embate sustentado por Meirelles com Mantega, após a queda de Antonio Palocci, na gestão Lula, era um bom sinal para a economia.

O ex-presidente manteve esse conflito em que na maior parte do tempo, Meirelles prevaleceu. Desde o ano passado, Lula tenta convencer Dilma a trazer Meirelles de volta para o lugar de Mantega, sem êxito.

Dilma preferiu maquiar as contas, dando ao inacreditável secretário do Tesouro, Arno Augustin, um espaço de poder e importância que representam um aval à chamada contabilidade criativa, uma das prováveis razões da saída de Nelson Barbosa do governo, a empo de salvar sua biografia.

Seria para Dilma dar o braço a torcer se atendesse ao ex-presidente. Mas agora o faz, pois seu anúncio de nova equipe, o que inclui Mantega, é um reconhecimento de que a economia vai mal, o que nega nos debates, entrevistas e reuniões institucionais.

Dilma bem tentou generalizar a mudança, tratando-a por “novo governo, nova equipe”, mas ela tem nome e endereço: Guido Mantega e ministério da Fazenda. A equipe econômica que tem Mantega em comando simbólico, fechou-se a críticas, ponderações e recomendações, viessem de onde viessem.

Desde ontem, Mantega é um zumbi na Esplanada dos Ministérios.

(Publicado no Broadcast Político, da Agência Estado, sexta-feira,05, às 12 horas)

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