Um silêncio que fala por si só

Um silêncio que fala por si só

João Bosco Rabello

17 de dezembro de 2009 | 13h30

No discurso em que criticou ontem a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a censura ao jornal  O Estado de S.Paulo, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) aborda um aspecto desse episódio que chama a atenção pelo vínculo estreito que guarda com a desmobilização (ou seria melhor dizer imobilização?) dos segmentos da sociedade historicamente identificados como de esquerda.

discurso de Jarbas Vasconcelos levanta o véu sobre a construção em curso de uma outra ditadura. Foto: André Dusek/AE

Discurso de Jarbas Vasconcelos levanta o véu sobre a construção em curso de uma outra ditadura: a do pensamento único. Foto: André Dusek/AE

Testemunha de tempos de intensa mobilização política, o senador reclama a omissão de intelectuais e dos chamados “movimentos sociais” que fizeram cara de paisagem para o autoritarismo judicial:

“…Ao acatar a possibilidade de censura prévia, o Tribunal foi inteiramente incoerente com sua decisão anterior de revogar a Lei de Imprensa. Mais sério ainda é o incômodo silêncio com o qual a decisão foi recebida. Com exceção das entidades ligadas à Imprensa e alguns poucos intelectuais, articulistas e colunistas, o posicionamento equivocado do Supremo Tribunal Federal passou em branco. Aqui mesmo nesta tribuna, em 18 de agosto passado, quando condenei a censura ao ‘Estadão’, alertei para a apatia da sociedade civil, para esse silêncio comprometedor e preocupante. Não se pronunciaram os chamados ‘movimentos sociais’, que hoje estão sob o patrocínio político e financeiro do Governo Lula e só se mobilizam quando é em benefício das forças que integram a ‘corporação governista’ liderada pelo Partido dos Trabalhadores. Também se calaram aqueles intelectuais que acreditam que a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto é um fim em si mesmo; que o Brasil atingiu o nirvana e nada mais importa, a não ser eleger a Ministra Dilma Roussef”.

O tema nos remete aos anos 70, quando o cineasta Cacá Diegues cunhou a expressão “patrulhamento ideológico” para defender o direito de outro cineasta, Gláuber Rocha, elogiar o general Golbery do Couto e Silva, o célebre ministro do governo Geisel, a quem se creditava a paternidade do processo de distensão lenta e gradual que abriu o caminho para o fim do regime militar. Gláuber classificou Golbery de “gênio da raça” e provocou um tsunami na esquerda brasileira, que o execrou publicamente.

A manifestação de Cacá  foi o auge da defesa do direito de qualquer cidadão manifestar sua opinião, sem ser agredido ou censurado, pois tratava-se de um juízo favorável a um inimigo comum, a ditadura militar. O discurso de Jarbas Vasconcelos levanta o véu sobre a construção em curso de uma outra ditadura – a do pensamento único, de uma pretensa vanguarda, que condena qualquer cidadão ou instituição que ouse pensar fora do padrão por ela estabelecido. Dessa nascente surgem as idéias totalitárias como a Confecom – a Conferência Nacional de Comunicação.

Esse fórum, que diz representar a sociedade brasileira, defende a criação do Conselho Nacional de Jornalismo, cuja síntese, de acordo com o vice-presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), César Schröeder, deve ser buscada numa analogia com o Conselho Federal de Medicina (CFM), “que pune os maus médicos”.  É uma definição que, mesmo sem imagem, fala por si só. É a tentativa de institucionalizar o controle sobre a opinião e a informação.

Como esperar de um fórum como esse uma palavra de condenação à censura prévia imposta a um dos maiores jornais brasileiros, se eles pregam a criação de um conselho para exercer a mesma censura? Dizia aqui outro dia que a informática inviabilizou o controle da informação, essencial a qualquer ditadura.  A turma do Confecom – patrocinada pelo governo do presidente que se declara publicamente a favor da mais ampla liberdade de imprensa -, parece determinada a revogar essa realidade, proibindo a informação simplesmente. E que torna a manifestação de  Lula mais um mero discurso inconseqüente.

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