Um diagnóstico duplamente insuspeito

João Bosco Rabello

25 de novembro de 2013 | 19h30

Vem de dois aliados – um ministro e um empresário -, a reafirmação do diagnóstico que aponta para a falta de transparência e a hesitação com a privatização,  causas de parte do descontentamento e desconfiança empresariais e, por extensão, da redução do crescimento econômico.

Cada um  ao seu modo e circunstância. O ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, em meio à euforia com o êxito dos leilões de aeroportos,  lamentou que o país tenha perdido tanto tempo com o debate que dizia que as concessões representavam a entrega da riqueza do país. Não foi outro o governo, que integra pelo PMDB, que agiu movido por essa convicção e afastou investidores com um discurso antilucro.

Recentemente filiado ao PMDB, o empresário Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, vice-presidente no governo Lula, sugere transparência, previsibilidade e menos intervencionismo como receita para o resgate da confiança do mercado. “Hiperatividade no campo econômico deixa o empresariado desconfiado”, disse em entrevista à Folha de S.Paulo.

Cotado para o Ministério do Desenvolvimento num eventual segundo mandato de Dilma Rousseff, que de pronto descarta, Josué Alencar cerca suas declarações das ressalvas indispensáveis para descaracterizá-las como críticas. Mas não pode operar o milagre de dizer sem dizer. “Tem (o governo) de dar mostras de que é absolutamente zeloso com a inflação e com as contas públicas”.

Ao melhor estilo mineiro, tira os nomes dos bois, chamando contabilidade criativa de erro de comunicação da área econômica, que teria transmitido uma ideia contrária do que fez, e atribuindo o descontentamento do empresariado a um conjunto de circunstâncias, e não ao governo, como se o primeiro pudesse existir sem a ação do segundo.

No campo político também não assina embaixo o discurso do PT que defende o financiamento público de campanha como panaceia para os males da política, especialmente o caixa dois – uma justificava póstuma para a delinquência da cúpula que sepultou a imagem de vestal do partido. “Caixa dois não deveria existir com financiamento público nem privado”, encerrou.

O ministro da Aviação Civil saudou o êxito dos leilões de aeroportos como o retorno ao ambiente de concorrência que a ideologização da economia obstruiu, como se extrai de sua entrevista divulgada pelo BroadcastPolítico, serviço em tempo real da Agência Estado. Também com a sutileza cuidado de chamar a operação de “concessão”.

Que é a forma como o PT cuida de privatizar sem dar o braço a torcer ao adversário que venceu eleitoralmente com a crítica às privatizações, vendendo-as ao eleitor como a entrega da riqueza nacional, hoje responsável por um raro momento vitorioso desde que passou de oposição a governo.

Chega a ser risível a declaração do líder do PT no Senado, Wellington Dias (PI), de que as privatizações no governo Dilma se diferem das feitas no governo de Fernando Henrique Cardoso, por não abranger áreas de segurança nacional. A essa altura, fica difícil saber a classificação do PT para o  petróleo e os aeroportos, senão como estruturas no âmbito da soberania nacional.

O que fica patente tanto nas avaliações de Moreira Franco e de Josué Alencar quanto na tentativa envergonhada de Wellington Dias de vestir a privatização do PT com roupagem socialista, é que o governo obteve êxito quando fez o que deveria ter feito há muito tempo.

O que retira da comemoração reativa da presidente Dilma Rousseff , dedicando o êxito dos leilões de aeroportos aos pessimistas de plantão, a legitimidade necessária para sua credibilidade.

Os leilões, dessa vez, deram certo, porque o governo cedeu à evidência de que a insistência na condução ideológica da economia já pôs em risco o projeto de reeleição de Dilma Rousseff.

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