Um debate sem vencedor

João Bosco Rabello

15 de outubro de 2014 | 17h47

Se considerada a meta comum aos dois candidatos que disputam a Presidência da República, de capturar votos de indecisos e daqueles dispostos a anularem os seus, o debate de ontem na TV Bandeirantes não acrescentou capital a Aécio Neves e Dilma Rousseff.

O debate reviveu a intensidade da disputa política entre PSDB e PT mesclando a paternidade do bolsa-família, comparações entre as economias nos respectivos governos e alternado troca de acusações de corrupção.

A temperatura foi alta, refletindo o clima perceptível nas redes sociais, o que talvez se esgote nesse primeiro confronto. Uma platéia qualificada reunida por este blog para assistir ao debate, com simpatizantes de ambos os lados, concluiu que quem votou em Dilma e Aécio no primeiro turno, manterá seu voto.

Falta, portanto, saber quem alcançará maior êxito na pescaria dos votos disponíveis que decidirão o segundo turno. Por ora, pelo debate, não há esse vencedor. Mas vale uma abordagem de aspectos com potencial para definir o pleito.

A candidata Dilma Rousseff leva desvantagem na economia e na corrupção, porque fazem parte do presente. Para defender-se das denúncias relativas à Petrobrás, recorre a um passado já distante, no governo dos tucanos nos anos noventa.

Mas o escândalo da Petrobrás se desenha insuperável em sua dimensão histórica com danos que já autorizam uma previsão de grave cenário institucional após as eleições. É um raio que desce na campanha com a força de sua atualidade.

Da mesma forma, a economia é agenda de hoje e resultado de um partido que está há 12 anos na gestão do país. Recorrer aos anos noventa não sensibiliza uma parte do eleitorado que desconhece o cenário de época.

Aécio Neves tem em Minas seu ponto mais vulnerável. Não pelos resultados de seu governo, que são bons, o que a eleição qualificada do ex-governador Antonio Anastasia para o Senado atesta. Mas pela sua derrota pessoal para o governo estadual. Não por acaso, a candidata do PT deu ênfase a esse ponto no debate.

Não se fala na disputa presidencial no Estado, porque há um segundo turno com indicação de reversão a favor de Aécio. Mas também a vitória de Dilma no primeiro turno em Minas, sinaliza para dificuldades do senador em seu território político e abre brecha para que se vincule esse resultado ao seu governo.

A eleição de Anastasia, como se deu, desmente a tese, mas em debate isso é secundário. Importa, nesse caso, a derrota eleitoral imposta pelo eleitor mineiro, reduzindo a força dos números positivos da gestão candidato.

Aécio também deixou de incluir no seu roteiro menção ao eleitor de Marina Silva, um acenbo necessário apesar de já se ter constatado que recebeu 64% de migração desse contingente. No entanto, é preciso afirmá-lo e tentar ampliar essa votação, trazendo ao debate o tema ambiental e a recíproca para o apoio da ex-senadora.

Há uma campanha do PT na esfera digital, de baixíssimo nível, difamatória e caluniosa, que se transferida para a agenda dos debates por Dilma poderá ter efeito contrário ao pretendido. Multiplicam-se textos, ilustrações montadas e versões falsas que atribuem ao candidato desde o consumo de cocaína até relações com o tráfico e espncamento de uma mulher.

Excetuando-se esse roteiro, não há visível outra arma, uma carta na manga, que o governo possa tirar para enfrentar a desvantagem com o escândalo da Petrobrás. A começar pelo fato de que a oposição não tem qualquer mérito no levantamento desses casos: eles surgem pela via judicial no momento em que mais se criticava a anemia oposicionista.

E é a via judicial que diferencia as denúncias feitas de parte a parte: o mensalão, que impôs expressiva perda de capital político ao PT, assim como a Petrobrás, seguiram caminhos judiciais sem que a oposição contribuísse para tal. Esperar que não explorasse os episódios politicamente não seria razoável.

Os casos que remetem ao PSDB não saíram do plano das denúncias, alguns em fase de investigação. O chamado “mensalão mineiro”, reproduz o do PT apenas no modelo, mas envolve um número bem menor de pessoas e está na esfera judicial.

O problema do PT não é o escândalo, mas a reação do partido, que tratou como heróis os condenados pelo esquema e investiu contra a Suprema Corte.  O episódio julgado pelo STF levou à cadeia dirigentes históricos do partido e essa era a dificuldade de enfrentar o escândalo. Ficou, poiis refém do mensalão por não repudiá-lo.

De qualquer forma, os índices das pesquisas e a inetnsidade da campanha mostram que essa é uma disputa renhida, voto a voto, que terá um desfecho com placar bastante apertado.

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