Tratamento do Planalto dosará engajamento do PMDB

João Bosco Rabello

06 de fevereiro de 2014 | 18h00

Não deve ser tomada com o tom de ultimato que sugere, a declaração do PMDB de que não indicará mais nomes para cargos no governo federal. Não obstante, ela é denotativa do ponto de fervura a que chegaram as relações entre o partido e o Planalto – e é esse o objetivo da nota da bancada da Câmara, a mostrar que o limite daquilo que se costuma dizer que “faz parte do jogo”, foi ultrapassado.

O parâmetro de avaliação do partido para dar ou manter apoio a governos continua o de sempre: a perspectiva de vitória eleitoral, que ainda vê em Dilma. O que ocorre agora é a insatisfação com o tratamento de ator secundário que o governo dispensa ao aliado, fruto da pressão do PT, rival com o qual trava uma disputa à parte pela vitória nas urnas e pela isonomia no ministério.

A demora da presidente Dilma não parece obedecer a idiossincrasias ou ao simples intento de provocar o PMDB. Como a reforma ministerial ficou atrelada ao apoio e tempo de TV na campanha da reeleição, obter a proporcionalidade na distribuição dos cargos é tarefa das mais complexas.

Trata-se de um jogo em que a meta não é agradar ao máximo de interlocutores, mas de desagradar o mínimo possível.

Ou seja, Dilma tem que operar visando ao conjunto da obra, o que se tornou mais difícil com a exigência de isonomia do PMDB em relação ao PT na ocupação de Pastas. O partido sempre se achou contemplado com os ministérios de menor relevância e, agora, a circunstância da campanha é uma oportunidade para ir mais além e cobrar o sexto ministério que o deixará em condições de igualdade com o rival.

A tentativa presidencial de fazer do limão uma limonada, ao oferecer o ministério da Integração ao senador Eunício de Oliveira, para afastá-lo da disputa pelo governo do Ceará , em favor do candidato do governador Cid Gomes (Pros), foi uma manobra política infantil. O partido já havia indicado e reafirmado que o nome é o do senador Vital do Rego (PB) e a tentativa do Planalto desafia o quase meio século de politica da legenda.

Se achou que, apesar da obviedade da proposta, era preciso tentá-la, a presidente Dilma agora deve retomar o processo de reflexão no estágio em que se encontrava há uma semana, considerando não só o nome de Vital, mas ainda reconsiderando o veto que se impusera à cessão da secretaria dos Portos ao partido.

O prejuízo para o Planalto, que possivelmente tem raciocinado menos com a ideia de um bom relacionamento com o partido e mais com a de mantê-lo sob controle, é que a diferença entre um e outro é o humor que se reflete no maior ou menor engajamento da legenda com o governo. Um aliado atendido é importante, mas estimulado ele rende muito mais.

Se no Congresso Nacional tal realidade se reflete nas votações importantes para o governo, nas ruas, durante a campanha eleitoral, ela pode fazer a diferença entre uma votação média e uma expressiva – caso do Rio, onde o PMDB já deslocou seu foco para as eleições estaduais e não se empenhará pela disputa presidencial como o fez na eleição anterior.

E a máquina do PMDB é vital a qualquer governante, em qualquer plano – municipal, estadual ou federal. Em números relativamente atuais, o partido hoje tem dois milhões e quatrocentos mil filiados; diretórios em mais de 4.600 municípios; 1.175 prefeitos eleitos, 8.500 vereadores; 19 senadores; 76 deputados federais; 5 governadores; 150 deputados estaduais, e  o vice-presidente da República, Michel Temer.

Essa capilaridade partidária é alvo do PT que, legitimamente, pretende alcançá-la e ultrapassá-la, o que estabelece uma disputa paralela entre os dois partidos mais fortes da aliança que sustenta o governo Dilma. Tire-se um desses apoios e o governo se verá em sérias dificuldades.

Por isso, o tratamento isonômico é o mais recomendável ao Planalto, principalmente porque não afeta qualquer projeto de governo, não há entre ambos divergências maiores e a ideologia é a do Poder, embora o PT tente disfarçar isso.

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