Tecnologia x Corrupção

João Bosco Rabello

08 de dezembro de 2009 | 13h50

Só os paranóicos, segundo Bill Gates, sobrevivem no mundo tecnológico em que vivemos. A advertência não chegou aos políticos brasileiros, especialmente aos da geração passada, cujos sistemas políticos anacrônicos dependem do controle e manipulação da informação. Assim como nas ditaduras, esse controle é essencial ao êxito dos objetivos de partidos e governos.

Desde o início da década de 90, a informática sinaliza para o fim dessa possibilidade inugurando um novo ciclo, fatal aos  feudos instalados em todas as organizações,  privadas e públicas.  É o fim  do segredo funcional e administrativo, era da sinergia como instrumento indispensável ao sucesso empresarial e profissional. O mundo funciona em rede.

O político brasileiro, porém, manteve-se indiferente a essas mudanças, sem perceber que a correção na condução do interesse público terá de ser absorvida, senão  por virtude, por necessidade. As digitais se perpetuam como no caso da violação do painel do Senado, que expôs pela primeira vez o governador José Roberto Arruda.

As formas que permitiam ocultar a prática do nepotismo, por exemplo, não resistem ao cruzamento de informações facilmente executado em poucos minutos. Transferências de dinheiro ilegal ficaram ultrapassadas pela tecnologia a serviço dos õrgãos de investigação e controle. Mesmo as transferências em espécie deixaram de ser seguras, como já comprovaram ações da Polícia Federal e, agora, em Brasília, com a briga da quadrilha instalada no governo e no legislativo.

Não por outra razão, o Senado optou pela estratégia dos chamados “atos secretos”, aqueles que entravam em vigor sem entrar no sistema. Nomeações e decisões que seus mentores não queriam compartilhar, simplesmente ficavam nas gavetas. Não foi o suficiente: e-mails tratando de alguns desses atos deixaram o rastro virtual suficiente para o desmonte do esquema.

O “coronelismo” político, do qual são símbolos mais conhecidos o já falecido senador Antônio Carlos Magalhães, e o presidente do Senado, José Sarney, não sobrevive a uma tecnologia capaz de desmentí-los a cada justificativa de ocasião. Aconteceu com ACM, que renunciou, e com Sarney, que conseguiu se manter no cargo às custas do governo e da censura.

Com Arruda, equipamentos de última geração, microcâmeras de alta precisão, transformaram seu sistema de corrupção em longa-metragem, exibido em séries demolidoras. Com o que já se viu é possível cruzar dados de despesas de governo e identificar cada desvio feito e os destinatários de recursos ilegais. Não é mais possível patrimônio invísivel.

Como muitos sistemas obsoletos não são passíveis de adaptação e constituem acervo de falcatruas, é de se esperar que muito ainda venha à tona para escandalizar ainda mais o mundo político. Não obstante o strip-tease ainda em curso no DF.

Tudo o que sabemos sobre:

ACMArrudaSarneysistema políticoTecnologia

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.