Socorro de Lula amplia desgaste de Dilma

João Bosco Rabello

24 de fevereiro de 2014 | 16h21

A julgar pelas preocupações manifestadas pelo ex-presidente Lula, as dificuldades políticas do governo são maiores do que a conveniência eleitoral permite debater. A essa altura da disputa, o debate interno é substituído por ações objetivas, sob pena de estender a paralisia administrativa ao campo político.

Pelo que se recolhe de interlocutores do ex-presidente, ele não discorda do diagnóstico que detecta na personalidade centralizadora da presidente Dilma Rousseff o obstáculo principal à remoção das dificuldades de seu governo. Menos pelo que nega aos políticos da base aliada e mais pela forma como nega, expondo-os como fisiológicos vorazes e insaciáveis.

As recusas dos empresários Josué da Silva e Abílio Diniz, convidados nessa ordem para o ministério do Desenvolvimento são atribuídas ao temor de uma convivência difícil com a presidente, dada como pouco afeita ao diálogo. E ríspida quando considera que a divergência do interlocutor já alcançou seu limite.

Lula está em visível esforço de convencimento de empresários e políticos em relação à mudança por parte da presidente na forma de conduzir a política e a economia num eventual segundo mandato. Tenta fazê-los crer naquilo que não crê.

Não fala a plateias ingênuas ou inexperientes que não desconheçam a impossibilidade de transformação de perfis psicológicos já consolidados. Portanto, ao dar visibilidade aos conteúdos de suas conversas e falas em fóruns específicos, amplia o desgaste de Dilma, ao invés de amenizá-lo.

A pregação da esperança pressupõe um quadro negativo que a justifique o que, no caso, se dá pela admissão de que os cenários político e econômico são ruins e que a presidente os agrava com seu perfil pouco negociador.

Para os que alimentam a tese de seu retorno ainda em 2014, a mensagem subliminar de que a presidente é difícil, mas eu resolvo esse problema, é perfeitamente adequada à estratégia sempre negada de troca da candidatura do PT.

Esse tipo de ação de socorro legitima também o discurso de insatisfação dentro da base aliada, principalmente do PMDB, em estado de rebelião. E dá razão à oposição, porque desenha um cenário sem saída com Dilma.

Por constatação, o que a base insatisfeita, a oposição e Lula dizem é a mesma coisa, diferindo apenas quanto à solução. O país vai mal, Dilma não tem condições de sair do enredo que criou para si mesma – aí a base diz que Lula é a saída, enquanto a oposição se divide entre Aécio Neves e Eduardo Campos.

É uma situação atípica, em que a candidata da situação é atacada também pelos que deveriam estar empenhados em sua reeleição. Senão para “cristianizá-la”, outro sentido faltaria ao enredo. A fotografia do momento exibe uma Dilma bastante fragilizada.

As negativas do ex-presidente Lula quanto à possibilidade de seu retorno, até aqui têm chegado ao conhecimento público por interlocutores que vazam conversas , certamente autorizados. É pouco para desfazer o sonho queremista que contamina a base.

Quando detinha índices similares ao de seu antecessor, Dilma obteve deste o anúncio público de comprometimento com sua candidatura.

Que talvez precise ser renovado para que a queda na aprovação presidencial não justifique a desconfiança de um golpe em curso contra a candidatura oficial.

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