Só boa expectativa na economia submete adversários

João Bosco Rabello

17 de julho de 2013 | 17h38

Realizada sem a distância desejável em relação à pesquisa Datafolha, a consulta encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), que confirma os índices negativos da anterior, não é vista pelo governo como referência válida para medir a repercussão das reações da presidente Dilma Rousseff aos protestos de rua. Mantém, porém, a tensão na cúpula palaciana e nos partidos da base.

Ainda que essa teoria pudesse ser indiscutível, por si só não ameniza a gravidade do momento enfrentado pelo governo e desautoriza otimismos. A estagnação no patamar dos 30% de aprovação, acompanhada de queda proporcional no índice de aprovação pessoal da presidente, realimenta o desgaste político que responde pelo enfraquecimento do governo junto ao Congresso.

O poder impositivo desfrutado pela presidente do início de seu mandato até dois meses atrás, que a permitiu faxinas éticas e indiferença aos clamores dos parlamentares da própria base, cai na mesma proporção da perda de aprovação popular. O que torna incompreensível para grande parcela dos políticos, inclusive aliados, a opção pelo confronto com o Legislativo, através da estratégia de transferir-lhe os ônus pela ineficiência cobrada nas ruas.

Bombeiros do foco de incêndio crescente entre o PMDB e a presidente, entre os quais o vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), asseguram que ela já está mais sensível à necessidade de aproximação com o Congresso e mais permeável a acordos que não comprometam a capacidade do governo de dar mais eficiência à sua gestão, especialmente após os protestos das ruas.

Se, de fato, estiver, terá sido por necessidade, não por flexibilidade espontânea. E representará um avanço na tentativa de abrandar a crise política. Mas para uma reversão nos índices perdidos, a presidente precisaria de igual disposição e abertura para contornar a principal causa de sua queda nas pesquisas – a piora da economia, conforme atestam as pesquisas anteriores às manifestações de rua, que já registravam perda de oito pontos percentuais após a “crise do tomate”.

A percepção da inflação e o esgotamento do modelo de consumo como saída para os gargalos da economia, significaram o fim da anestesia e o retorno gradual da realidade aos beneficiários dos tempos de bonança. O recurso a financiamentos para quitação de dívidas contraídas na fase do crédito farto pode ser considerado o ponto de inflexão do bom humor da população.

Que, portanto, não sugere ser passageiro como avalia o publicitário João Santana, artífice da construção da imagem do governo e da presidente Dilma Rousseff, que deve ter suas razões para o otimismo demonstrado. Ou o faz por convicções baseadas em dados de que só ele dispõe, ou por dever de ofício, parte de qualquer estratégia de reversão de expectativas.

Mas o que prevalece entre políticos, empresários e economistas é a avaliação de que só a reversão do quadro econômico, que passa necessariamente pelo convencimento da presidente em relação a pontos fundamentais do modelo, submeterá os críticos e adversários do governo, transformando- em dóceis cidadãos empenhados em fazer o seu mandato dar certo.

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