Sinais externos de nervosismo

João Bosco Rabello

03 Janeiro 2014 | 18h33

Sinais de nervosismo com as críticas costumam respaldá-las, na medida em que a irritação denuncia, pelo menos, algum  fundamento nas análises que incomodam governos.  Estes criam logo inimigos, sempre dispostos a agir na contramão dos interesses do país, num surrado recurso diversionista.

Ao anunciar ainda há pouco um resultado fiscal abaixo do projetado – e, mesmo assim, à base de receitas extraordinárias -, o ministro da Fazenda, Guido Mantega,  explicou a antecipação do anúncio como uma forma de “acalmar os nervosinhos”.  Na conta, entraram os R$ 15 bilhões do bônus do campo de Libra e mais R$ 20 bilhões resultantes do parcelamento do Refis.

O ministro poderia anunciar os números, que não merecem euforia, sem expô-los como a derrota dos analistas, pois a simples antecipação do anúncio, ao contrário de sua justificativa, foi decidida para ocupar o noticiário com algum dado “positivo” em meio aos sucessivos revezes registrados na gestão econômica do governo.

Só esse fato é suficiente para indicar que os analistas acertaram mais que o governo em suas previsões. Na véspera do anuncio da meta fiscal, o país registrou o pior resultado na balança comercial dos últimos 13 anos. Que só não foi ainda maior por causa das manobras que contabilizaram 7,7 bilhões de dólares da venda de plataformas que nunca saíram  do país e mais  cinco bilhões de exportações de petróleo que deveriam ficar na conta de 2012.

A irritação do ministro da Fazenda fica explícita na sua fala quando a dirige aos “nervosinhos”, numa ironia incompatível com o dever do cargo, de dar satisfação pública. Com um sorriso fora de lugar e hora, Mantega parecia vangloriar-se de números que deveria anunciar com uma ponta de constrangimento. Mas optou pela receita preferida do PT de buscar bodes expiatórios para seus insucessos.

Os critérios pouco ortodoxos do governo provocam embaraços aos investidores em todo o mundo quando recebem as informações passadas pelas agências internacionais em tempo real. Nas matrizes, informações literais são absorvidas, de início, como erro do mensageiro, para, mais tarde, serem esclarecidas. De que se orgulha o ministro, então?

Foram as sucessivas previsões erradas do governo que geraram a desconfiança no mercado e entre os analistas – e não o contrário, como precisaria ser para justificar o factoide criado pela presidente Dilma Rousseff com a sua tese da “guerra psicológica”. Ela mesma errou ao antecipar que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2012 seria de 1,5% e não 0,9% , revisado pelo IBGE, em dezembro, para 1%.

O Planalto, à época, atribuiu ao excesso de otimismo do ministro da Fazenda o erro a que teria sido induzida a presidente. A ser verdade, e não apenas uma cômoda saída pela tangente do governo, é novamente Mantega o sujeito da previsão errada.

O contexto da economia é preocupante:  inflação alta, manipulação de preços, crescimento baixo, desequilíbrio fiscal, endividamento das famílias,  males decorrentes de gestão equivocada e teimosa, cuja percepção pelo mercado irrita o governo. Na busca de culpados, o ministro da Fazenda parece ter dificuldade de ligar corretamente os nomes às pessoas.