Sigilos da Delta podem abrir novo ciclo da CPI

João Bosco Rabello

13 de junho de 2012 | 20h00

Os depoimentos dos governadores Marconi Perillo (PSDB) e Agnelo Queiroz (PT), de Goiás e Brasília respectivamente, são a face da CPI do Cachoeira como idealizada pelo ex-presidente Lula: um palanque pré-eleitoral destinado a produzir vítimas na oposição e impedir que o PT caminhe na campanha municipal como único réu político,  julgado pelo mensalão.

Nesse contexto, importa menos uma conclusão da CPI sobre os depoimentos e muito mais o desgaste de imagem imposto aos depoentes que, mesmo saindo-se bem dos longos interrogatórios, não ficam imunes às suspeitas dos eleitores.

O tiro no pé ficou claro quando o governador tucano deixou de ser o único alvo da CPI, na medida em que os vínculos entre o contraventor Carlos Cachoeira e a empresa Delta Engenharia se mostraram muito mais amplos e sólidos do que se supunha.

A primeira vítima exposta acabou sendo o governador do Rio, Sérgio Cabral, cuja convocação foi evitada por um favor do PT ao PMDB que este último resgatou hoje blindando o governador do Distrito Federal em seu depoimento.

Hoje, com governador de Brasília repetindo o êxito de seu antecessor , de Goiás (ambos saíram ilesos dos interrogatórios ), PT e PSDB ocuparam toda a tarde com um inútil debate sobre quem se saiu melhor – ou pior. Discutiram índices de corrupção, o que ajuda a agravar ainda mais a já combalida imagem do Poder Legislativo.

O PT foi mais esperto, porque na véspera provocara o governador tucano a oferecer seus sigilos telefônico e fiscal à comissão, sem êxito, porque o relator, deputado Odair Cunha (MG), justificou o pedido afirmando que Perilo era investigado e não testemunha.

Tudo de caso pensado: o PT precisava conseguir a rejeição de Perilo ao pedido por já ter combinado previamente com Agnelo que este hoje ofereceria os seus sigilos durante seu depoimento.

A diferença de comportamentos foi explorada pelo PT durante toda a sessão da CPI, embora o governador de Goiás mandasse avisar à comissão que os seus sigilos também estavam à disposição.

Esse Fla x Flu particular, espera-se, dará lugar a um ciclo mais produtivo da CPI com o cruzamento, já em curso, dos dados dos sigilos telefônicos e bancários da Delta, quebrados há cerca de duas semanas.

Essa investigação, que o PT pretendia limitar ao centro-oeste, tem âmbito nacional e poderá produzir informações novas que permitam ir além do que a Polícia Federal já entregou à comissão.

Será possível também ver até onde vai o ânimo de governistas e oposição de aprofundar as investigações, pois elas têm potencial para provocar danos nas bases municipais e estaduais de todas as legendas, posto que a Delta tem obras em todo o país e, por conseguinte, relações com estruturas públicas comandadas por todos os partidos.

O mais provável é que haja uma nova tentativa de controle do processo, o que historicamente não ocorre integralmente em CPIs. A quebra de sigilo da Delta é uma bomba-relógio a assombrar políticos de todas as legendas e também o governo da presidente Dilma Rousseff.

A inidoneidade da Delta decretada ontem é um divisor de águas nesse enredo, mas se demonstra a determinação do governo em enfrentar as consequências do impedimento da empresa líder das obras do PAC, não o livra do passivo de irregularidades já registradas antes do banimento da empreiteira.

Sobra para todos e, do ângulo estrito da lógica política, não há qualquer relação custo/benefício positiva.

Do ângulo da sociedade, ainda que todos os fatores mencionados possam limitar as investigações, é alvissareira a certeza de que não há desfecho inteiramente favorável para os beneficiários da má política – aquela exercida em favor de grupos de interesse e em desfavor do cidadão.

 

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