Sem retorno

João Bosco Rabello

25 Fevereiro 2015 | 17h51

O movimento mais recente do PMDB, cujo auge foi a eleição de Eduardo Cunha (RJ) para a presidência da Câmara, tem origem na convicção do partido de que governo e PT se empenhavam em uma estratégia para reduzir – para alguns, destruir -, o aliado de mais peso na base de sustentação.

Não foi, portanto, um movimento de medição de forças rotineiro dentro de uma aliança governista, mas uma reação motivada pelo instinto de sobrevivência, com base em uma constatação mais grave identificada como traição. A gota d’água foi a operação de recriação do PL, pelo ministro das Cidades, Gilberto Kassab, para futura fusão com o PSD, produzindo um partido maior ou igual ao rival.

A entrega do ministério a Kassab, o mais estratégico para cooptações políticas, foi compreendida como parte dessa ofensiva contra o PMDB. Foi o coroamento de um tratamento hostil aplicado ao partido continuamente, por muitos anos dentro da aliança de governo. Do que é ostensiva a exclusão permanente do vice-presidente Michel Temer do núcleo decisório do governo.

Com o desgaste político da presidente Dilma Roussef e do seu partido, emparedados por uma crise polítca e econômica de difícil administração, é improvável que o PMDB recue dessa decisão de enfrentar o aliado formal ou se disponha a uma trégua que dê fôlego ao governo.

A crise econômica, ao se juntar a esse cenário, amplia as dificuldades de Dilma. O programa de ajuste fiscal conduzido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem no PT seu principal opositor, por atingir suas bases sociais, o que subtrai ao governo energia para costurar um acordo parlamentar pela aprovação das medidas recessivas.

Nesse momento, o PMDB diz com todas as letras que não será advogado solitário das medidas de Levy, pois já percebeu que o PT procura esquivar-se da defesa do pacote fiscal para que o ônus da impopularidade recaia sobre o partido. Essa forma de oposição que o PT procura desenhar em relação às medidas econômicas, acrescenta mais ao seu histórico de onerar o aliado.

Trocando em miúdos, o que o PMDB sinaliza é que não teve influência no processo decisório do governo que levou o país aos caos econômico e que não servirá de bode expiatório para equilibrar as contas, enquanto o rival instiga suas bases sociais para reagir ao ministro da Fazenda. Quem pariu Mateus que o embale, é a síntese peemedebista.

Não por acaso, o partido ressalta a exclusão do vice-presidente Michel Temer desse processo decisório, caracterizando o comportamento do PT como sectário nos tempos de vacas gordas e de cobrar fidelidade nos tempos de vacas magras. Pior, ainda mantendo a exclusão do vice-presidente e contemplando partidos da base de menor expressão com pastas mais bem aquinhoadas na estrutura ministerial, casos do PTB e do PP.

Os prazos conspiram contra a dissimulada busca de trégua por parte do PT, pois o ano de implantação das medidas recessivas é véspera das campanhas municipais e os efeitos do ajuste, que permitirão a retomada da política de benefícios sociais, só se farão sentir , com otimismo, em 2017.

Tem-se, pois, um quadro dramático para o governo e o PT. Não têm ainda a confiança do mercado, como mostra a nota de rebaixamento da Petrobras, e dependerá para tanto de um apoio mais incondicional do que tem dispensado ao ministro da Fazenda. O que o afasta de suas bases eleitorais. E não tem mais qualquer resquício de confiança entre os integrantes de sua base de sustentação, principalmente o PMDB.

O partido de Eduardo Cunha vai aprofundar o fosso em busca de independência que lhe devolva o poder impositivo histórico que o caracteriza como um partido sempre fiel de balança e credor da estabilidade de governos.

Os sinais são claros: é provável a aprovação da PEC da Bengala, que retira da presidente a indicação de cinco ministros do STF no curso de seu segundo mandato, a Câmara já firma posição antagônica à política externa que passa a mão na cabeça da ditadura venezuelana, o governo pede de joelhos que salvem o pacoter de Joaquim Levy – e, o PT, afunda lentamente na areia movediça do esquema de corrupção com o qual financia seu projeto de poder.

Há muito mais em curso, mas essas imagens ilustram bem a posição que o PMDB decidiu tomar em caráter definitivo. Aqui e ali pode agir para manter a estabilidade, mas de forma geral, o partido reage ao que entendeu ser uma estratégia para lhe colocar ladeira abaixo.

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