Saulo Queiroz: O desafio de Aécio é monumental

João Bosco Rabello

22 de setembro de 2014 | 20h23

 

Em artigo para este blog, antecipado à tarde para os assinantes do Broadcast Político, da  Agência Estado, o Secretário Geral do PSD, Saulo Queiroz,  analisa o cenário eleitoral a 13 dias da votação que determinará o futuro presidente da República.

Reconhecido como um dos políticos que traduz com mais realismo e precisão os números das pesquisas, pela longa experiência e conhecimento que detém dos partidos e dos cenários regionais, Saulo considera difícil a virada do candidato Aécio Neves – mas não impossível.

Ele considera difícil a vitória da presidente Dilma Rousseff, mas  alerta para a necessidade de Marina Silva construir uma composição política que lhe assegure a vitória no segundo turno.  “A protagonista é ela”, diz.

 

NA RETA FINAL

“Não há diferenças substanciais entre os dados das pesquisas Ibope e Datafolha publicadas semana passada. Pelo contrário, as pequenas diferenças ficam na margem de erro de dois pontos. Os números têm provocado angústias generalizadas porque, aparentemente, indicam um quadro de indefinição quanto ao resultado final.

Evidentemente podem ocorrer mudanças no cenário nestes 13 dias finais de campanha, mas é pouco provável que mude o desenho de um segundo turno entre Dilma e Marina.

A reação de Aécio, tímida se considerarmos o pouco tempo restante, fica comprometida pelo seu desempenho em Minas, muito aquém da expectativa inicial, de pelo menos uma maioria em seu berço político.

Para entrar no páreo, com base na última pesquisa Datafolha, Aécio precisaria avançar pelo menos sete pontos, chegando a 24%. Como a posição de Dilma em torno de 35% é consolidada, porque o número se repete desde o início da campanha e guarda perfeita sintonia com a avaliação positiva do governo, também sempre em torno de 35%, não há possibilidade real de que ela caia ainda mais.

Por outro lado, como, estatisticamente, os votos brancos, nulos e indecisos devem se manter em um intervalo entre 10 e 12%, um avanço de 7% de Aécio só pode ocorrer com uma queda similar de Marina.

Como ela tem vantagem em todas as regiões, conforme o Datafolha, para uma posição de empate, Aécio teria que crescer de 9% para 18% no Norte, onde Marina tem 28%; de 8% para 20% no Nordeste, onde Marina tem 32%; de 20% para 26% no Sudeste, onde Marina tem 32%; de 23% para 27% no Centro-Oeste, onde Marina tem 31%; e de 22% para 24% no Sul, onde Marina tem 25%.

Convenhamos, senão impossível, é uma hipótese de baixíssima probabilidade. Às vezes nos atrapalhamos com esta informação porcentual, por isso vamos clarear: 7% representam todo o eleitorado do Centro-Oeste (DF, GO,MS e MT), algo em torno de 10 milhões de votos. Conforme o raciocínio anterior, de que o porcentual de Dilma está consolidado, Aécio terá que buscar esses 10 milhões de votos só no embornal da Marina. Muito complicado.

Vale, por isso, uma avaliação de potencial das duas candidatas na disputa de segundo turno, porque a lógica indica que é isso que irá ocorrer. Comecemos por Dilma. Primeira observação importante é distinguir a disputa em que não há um candidato à reeleição daquela em que um dos contendores busca a manutenção do poder. Neste caso, onde se encaixa Dilma, a escolha do eleitor tem um caráter plebiscitário: quero ou não quero que ela continue no cargo.

Normalmente, com a campanha na rua e, principalmente com o horário eleitoral, o julgamento do eleitor pode mudar, e quase sempre muda, favorecendo o candidato à reeleição, que tem oportunidade de mostrar seus maiores feitos para todo o público. Mas não foi bem o que aconteceu com a candidata Dilma até agora, o que sublinha seu alto índice de rejeição.

Desde as convenções seu desempenho nas várias listas do Ibope e Datafolha se manteve em uma variação pequena, entre 34 e 39%. Durante todo esse tempo cerca de 60% do eleitorado estão dizendo que não querem reeleger a presidente. É o caráter plebiscitário do qual falei acima.

Todavia na simulação de segundo turno contra Marina, Dilma tem avançado bem e os números já mostram uma situação de equilíbrio. Mas isso não basta para ganhar a eleição quando será necessário conquistar eleitores para chegar aos 50%.

O problema para Dilma é que para o segundo turno todas as variáveis lhes são desfavoráveis. Primeiramente, não há perspectivas de receber apoios de partidos que perdem no primeiro turno, caso de PSDB, DEM e PTB, que tenderão a caminhar com Marina.

Em segundo lugar os resultados das eleições estaduais favorecem Marina, senão vejamos: No Rio Grande do Sul, haverá segundo turno entre Ana Amélia e, provavelmente, Tarso Genro. Por conta da polarização natural, Ana Amélia, em nítida vantagem, deve apoiar Marina.

No Paraná, existe a perspectiva de Beto Richa vencer no primeiro turno, devendo apoiar Marina no segundo. Em Santa Catarina, Raimundo Colombo deve também vencer no primeiro turno e apoiará a reeleição da Presidente no segundo turno.

No Sudeste, o PT deve ganhar no primeiro turno em Minas e o PSDB em São Paulo. Em Minas, no segundo turno Marina poderá contar com o PSDB de Aécio, o que poderia equilibrar a disputa e, em São Paulo, com o desempenho frágil do PT e o distanciamento de Paulo Skaf, se houver empenho do PSDB, Marina pode consolidar uma grande vantagem.

O segundo turno na eleição do Rio, entre Garotinho e Pezão, não ajuda Dilma, porque Pezão é favorito e não deverá se empenhar pela reeleição da presidente. No Espírito Santo, Paulo Hartung se elege no primeiro turno e para o segundo Dilma praticamente não terá ninguém, como não tem agora.

No Nordeste os adversários de Dilma nos dois maiores colégios eleitorais, Bahia e Pernambuco, devem vencer no primeiro turno e poderão atuar no segundo, com muita força, de forma a reduzir ainda mais a vantagem da presidente hoje na região, que é de apenas 13% (53 a 40%). Nos demais Estados, o resultado do primeiro turno não irá mudar o cenário favorável a Dilma, que ganhará em todos eles.

No norte o quadro é muito favorável para a presidente, porque nos três principais Estados – Pará, Amazonas e Tocantins, a eleição deverá se resolver no primeiro turno, elegendo governadores da campanha de Dilma, de forma que no segundo turno ela manterá nítida vantagem, bom acima de 60% dos votos válidos.

No Centro Oeste, a vantagem de Marina no segundo turno deverá ser ampliada, porque, exceção de Mato Grosso do Sul, seus parceiros que disputarão o governo terão desempenho nitidamente superior no segundo turno, como mostram pesquisas de Mato Grosso, Distrito Federal e Goiás.

Quanto a Marina, aparentemente entra no segundo turno agregando duas vantagens importantes: a simetria no horário eleitoral e o possível apoio de partidos políticos importantes, mal sucedidos no primeiro turno, caso de PSDB e DEM, mas com vitórias importantes no primeiro turno na eleição de governador, casos de São Paulo, Paraná e Bahia.

Depois, a oportunidade de, com tempo de televisão reforçado, poder realmente dizer ao País o que pretende. Nessa hora, lhe será vital exibir disponibilidade de quadros confiáveis, ampliados com a natural migração para seu time de pessoas de alta confiabilidade, técnica e acadêmica, hoje com manifesta preferência por Aécio.

Esta será a questão vital para seu sucesso. Neste final de primeiro turno, por conta de equívocos que se repetiram, seus adversários estão conseguindo desqualificar seu preparo para o cargo e a impossibilidade de atrair quadros competentes para compor seu governo e garantir maioria confiável no Congresso.

Se quiser ganhar a eleição, ela terá que desmistificar, com ações concretas, estas duas questões. Para tanto terá que sentar na mesa com os naturais parceiros políticos de seu possível mandato e tentar compor uma proposta de governo comum, eliminando os temores de posições dogmáticas que assustam parcela racional da opinião pública, e demonstrando, ao mesmo tempo, que poderá ter um relacionamento de qualidade com o poder legislativo.

Em algumas questões terá, por isso, que arbitrar entre suas convicções pessoais e de seu partido e o senso comum da população e as regras da lei, como chamou a atenção essa semana Roberto Rodrigues para a relação com o Agronegócio.

Dependendo de como as coisas correrem no segundo turno, é perfeitamente possível que a vontade de mudar perca para o temor do imponderável.  A atriz principal desse filme se chama Marina Silva”.

 

 

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