Sarney, uma biografia para eternizar versões

João Bosco Rabello

27 de março de 2011 | 14h01

Ainda não li todo o livro “Sarney, a biografia”, da jornalista Regina Echeverria, mas o  que dele  se publicou, é suficiente para justificar sugestão já feita em algum lugar para que o título fosse outro: “Sarney, uma biografia”.

A base de pesquisas do livro é o diário do ex-presidente, o que o torna menos uma biografia e mais uma análise pessoal e emocional do personagem central – que dá sua visão dos fatos, mesmo que a história não a confirme.

Não importa, não é esse o compromisso de Sarney. O livro é uma oportunidade de eternizar suas versões para passagens da vida política nacional que possam comprometê-lo – desde a insegurança que marcou seu governo até o recente escândalo dos atos secretos do Senado.

A justiça a ser feita a Sarney é a de que fez o governo possível no quadro conturbado do Brasil da segunda metade dos anos 80, em que administrou crises em meio a uma Constituinte que queria lhe arrancar dois anos de mandato, perigosamente indiferente a ameaça militar de retrocesso, que ainda existia.

O que não justifica defesas recorrentes em que  sempre é a vítima nos erros confessados: ou alega desconhecimento de causa ou falha dos outros.

Ao negar que tenha autorizado concessões de rádios a parlamentares em troca de voto pela preservação de seu mandato, Sarney chega a ofender a inteligência do leitor.

– Não apareceu ninguém que dissesse: ganhei essa rádio para votar no Sarney”.

Como se do subornado fosse partir denúncia contra si próprio.  E, ademais, continua Sarney, quem tinha delegação para tal era o então ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

E quem delegava, senão o presidente da República?

Mas a maior demonstração de descompromisso com os fatos está na abordagem ao escândalo dos atos secretos do Senado, levantado pelo jornal o Estado de S.Paulo.

Sarney atribui ao senador Tião Vianna (PT-AC) a elaboração de um dossiê que teria alimentado a reportagem do jornal, como se de uma única fonte pudesse emanar o mar de denúncias que desaguou como um tsunami sobre a Mesa Diretora do Senado após sua eleição para a presidência da Casa.

Tião Vianna não fez dossiê algum. O que não significa que não tenha atuado contra seu adversário da hora.

Acabou alvo também de reportagem por ter feito o Senado pagar a conta telefônica de sua filha, que usou o aparelho pessoal do senador, gerando uma conta de R$ 14 mil. O tiro veio do então Diretor-Geral do Senado, Agaciel Maia, portanto, de Sarney.

O que deflagrou o processo foi a eleição de Sarney empenhado em proteger o filho, Fernando Sarney, empresário investigado pela Polícia Federal.

Sarney chegou a admitir que precisava do cargo para tanto, embora coletivizasse o interesse: dizia que parte dos senadores se sentia ameaçada com Tião Vianna na Presidência da Casa.

Certa vez, indagado se a tese da ameaça do PT não representava uma contradição, já que eram aliados, respondeu: ” Não sou aliado do PT, sou aliado a Lula”.

A expectativa de renovação não era só do PT, mas dos funcionários do Senado que desejavam o fim da gestão de Agaciel Maia, fiel delegado dos interesses do senador.

A derrota de Vianna rachou o funcionalismo do Senado e os jornalistas exploraram essa divisão para obter informações de interesse público que não se restringiram aos atos secretos, mas a toda uma série de desvios, alguns cometidos por mais de uma década.

O mais curioso é a tentativa de Sarney de minimizar a versão do suposto dossiê de Vianna. “São quatro linhas em seiscentas páginas, não significa nada”.

A resposta às quatro linhas cabe em três palavras: “Não é verdade”.