Rompimento do acordo do Código Florestal expõe vulnerabilidade do governo no Congresso

Rompimento do acordo do Código Florestal expõe vulnerabilidade do governo no Congresso

João Bosco Rabello

12 de maio de 2011 | 12h10

A campanha do chamado “fogo amigo” contra a ministra da Cultura, Ana de Holanda e o adiamento da votação do Código Florestal, repõem na cena política a relação do PT com o governo ao qual dá sustentação há oito anos.

Nos anos Lula, a relação do PT com o governo foi de submissão a uma liderança maior que o partido e com a popularidade em alta permanente.

 O ex-presidente tinha tanta segurança de sua liderança que impôs aos petistas uma candidata sem vínculo histórico com o partido.

Que esperou, desde então, o momento de tentar impor-se à presidente Dilma Rousseff, meta anunciada pelo ex-ministro José Dirceu ainda durante a campanha presidencial.

“O governo Dilma será o verdadeiro governo do PT”, disse ele, ao pregar a um só tempo a hegemonia do partido na aliança governista e a tese de que Lula não foi o governo do partido.

Recentemente eleito por obra e graça do mesmo José Dirceu, o novo presidente do PT, Rui Falcão, disse ter chegado o momento anunciado pelo seu cabo eleitoral: “Até aqui foi por Dilma; daqui em diante será pelo PT”, sentenciou.

Foi a senha para despertar as diversas correntes em que se divide o partido, que Lula, em entrevista ao Estadão, em 2010, chamou de “feira ideológica”. Que não deveria ser levada a sério.

Para Lula, o PT que chegou ao poder com sua primeira eleição, em 2002, foi o “PT maduro” e que, sob sua liderança e mediação, se imporia aos “aloprados”, outro termo que ele encontrou para (des) qualificar os militantes capazes de tudo.

Indagado na mesma entrevista se sua sucessora teria condições de exercer o mesmo poder moderador, ele deu duas respostas: 1) Com certeza, porque ninguém vai achar que pode governar com o PSTU e jogar tudo o que foi conquistado fora; 2) E eu não morri.

Não morreu e está mais presente do que possam supor os que investem na suposta deterioração de suas relações com Dilma. Ele entra em ação quando é necessário controlar  a “feira ideológica”.

Não por acaso foi o Secretário-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho – o assessor mais próximo de Lula em sua gestão e seu canal dentro do governo atual -, o porta-voz do “enquadramento” da militância que tenta desestabilizar a ministra da Cultura.


O líder do PMDB, Henrique Alves, o relator do projeto, Aldo Rebelo, e o líder do governo, Cândido Vaccarezza, após acordo para votar o Código

Já na madrugada de hoje, o governo jogou fora o acordo pela aprovação do texto do relator do Código Florestal, Aldo Rebelo (PC do B-SP), sacrificou a credibilidade de seu líder, deputado Cândido Vaccarezza (SP) e ainda assim provavelmente será derrotado na votação dessa questão.

Encerrada a sessão, lideranças do PMDB e PDT, da base aliada, identificaram imediatamente os reflexos de uma disputa interna do PT no impasse que levou à obstrução da votação para livrar o governo de uma derrota acachapante por mais de 400 votos.

Quem deu a senha a uma base desorientada com o repentino rompimento do acordo foi o experiente deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) que alertou o líder do PMDB, Henrique Alves (RN): “Se não obstruir, vocês vão para a caçapa”.

O impasse começa no Planalto com a idas e vindas de um  processo de hesitação que ignora uma maioria suprapartidária pelo texto de Rebelo.

E se conecta com a crise reprimida desde a destituição de Vaccarezza do posto de candidato à presidência da Câmara em favor de Marco Maia (SP), com apoio do ex-presidente da Casa , Arlindo Chinaglia (SP), entre outros.

Vaccarezza era o candidato de Dilma à presidência da Câmara, assim como o deputado Humberto Costa (PE), à presidência do PT. Nenhum deles vingou.

Ana de Hollanda é a ministra da Cultura escolhida pessoalmente por Dilma, mas não é a dos sonhos do PT.

Está, pois, aberta a temporada de queda de braço entre o partido e o governo, que testará a liderança política da presidente em momento especialmente estratégico.

Por ora, está exposta a vulnerabilidade do governo no Congresso – e não por obra da oposição, que parece em estado de coma, mas pela tentativa do PT de consolidar sua hegemonia na aliança e, conseqüentemente, impor-se ao governo.

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