Redesenho de 2014 orienta endurecimento do PMDB

João Bosco Rabello

04 de julho de 2013 | 14h28

O PMDB aumentou a temperatura na escala em que passou a graduar as relações com o governo, desde a decisão da presidente Dilma de reagir aos protestos de rua apropriando-se de uma pauta essencialmente legislativa. Uma escolha que desconsiderou a queda vertiginosa nos índices de aprovação do governo. Não está isolado no endurecimento, mas é quem se move de forma mais ostensiva nessa direção.

Desde a opção pelo papel de fiador da estabilidade de governos, mesmo que deles possa eventualmente não participar, o PMDB é o termômetro para avaliar a eficiência política das gestões. Governo que estiver bem avaliado e, portanto, eleitoralmente forte, o terá ao seu lado, como parceiro ou como base de sustentação – ou ambos, caso presente.

Assim é que a clara inflexão na aparente submissão que vinha admitindo ao Planalto, ditada principalmente pela alta aprovação da presidente, indica também que o partido já considera um redesenho da eleição presidencial de 2014. O governo ajudou a justificá-la quando avançou sobre território legislativo agravando a necessidade deste de responder pela parte que lhe toca na crítica geral.

Não é razoável desvincular desse contexto a súbita defesa, pelo partido, da redução do numero de ministérios, a descentralização dos recursos sob controle da União, o fim da reeleição, a obrigatoriedade da União em investir na Saúde 10% de sua receita, novo pacto federativo, que subtrairá mais recursos do governo central, entre outras medidas aprovadas pela Executiva nacional do partido ontem.

Mais emblemática de todas, a proposta de redução da estrutura de governo deve ser levada a sério pelo governo por ter origem no instinto de sobrevivência política e, dessa forma, já trazer embutida uma relação custo/benefício que inclui a possibilidade de o Planalto atendê-la preservando mais o PT. O que, por sua vez, mostra uma queda nos papéis do governo na bolsa eleitoral: em viés de queda e algoz da autonomia dos ministros, a presidente já não pode ser mais impositiva como há bem pouco tempo.

O redesenho do cenário eleitoral de 2014 é exercício extensivo aos demais partidos. Não passa em branco nem pelo PSD, que vem atuando como linha auxiliar de Dilma, mas que se mostra igualmente tenso pelos rumos que sua gestão tomou, principalmente na economia. Mas também pela reação errática aos protestos. Com a discrição que nesse momento não convém ao PMDB, o PSD tem sido crítico dos movimentos do governo.

Um sinal claro disso foi a aprovação, por iniciativa do ex-prefeito Gilberto Kassab, da rejeição à proposta de plebiscito de iniciativa do Planalto, a que antecedera a da assembleia  constituinte exclusiva. Não por acaso, ao lançar-se candidato à sucessão de Rui Falcão à presidência do PT, o deputado Paulo Teixeira (SP) faz um apelo pela unidade da aliança, “pelo nosso projeto”. Quase ao mesmo tempo, o Secretário-Geral da Presidência, porta- voz de Lula no governo, Gilberto Carvalho, reverenciou a divergência.

É que tanto os parceiros, quanto o PT, trabalham com números realistas. Estimam que uma eventual recuperação de Dilma poderá levá-la, com otimismo, ao patamar dos 40% de bom e ótimo, índice que a mantém no páreo, mas sem favoritismo. A permanência nos 30% de agora, não a leva sequer ao segundo turno. E ninguém acredita na recuperação plena que a devolveria ao patamar anterior à queda.

A súbita humildade do PT denuncia o temor do partido pelo futuro eleitoral: sem a reabilitação política da presidente, e com a recusa de Lula em voltar à cena como candidato,  o “nosso projeto”, como disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), começa a escorrer por entre os dedos.

O PMDB, sabido porque velho, já percebeu que o momento é estratégico para forçar o parceiro a trocar o sonho da hegemonia pela isonomia na aliança.

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