Recuo na Constituinte exibe desarticulação do Planalto

João Bosco Rabello

25 Junho 2013 | 18h00

Brasília,25 – O recuo, menos de 24 horas depois do anúncio, da proposta de uma Constituinte exclusiva, demonstra o quanto o governo está agindo movido por uma pressa de fundo eleitoral.

A reação do Planalto às manifestações mostrou-se tão rápida quanto desarticulada, com a digital ainda da área de marketing, que continua conduzindo o processo político.

A presidente Dilma se expôs ao absorver uma estratégia que tentava expor Congresso e poderes estaduais. Não buscou o entendimento para lançar tese tão polêmica e suas consultas parecem não ter saído dos muros do Planalto.

A rigor, mesmo dentro do espaço físico do governo, a consultoria foi seletiva: deixou de fora, por exemplo, o vice-presidente Michel Temer, um constitucionalista que, além do cargo formal, é o presidente de fato do PMDB.

A pressa parece encobrir uma pretensão de resolver todos os problemas da pauta dos movimentos antes da próxima passeata. Tempo perdido: além da impossibilidade, a tendência agora é a customização das reivindicações – ou seja, cada grupo apresentando a sua, numa espécie de varejo desesperador para as administrações públicas.

Da mesma forma, no campo econômico, o governo parece ter dificuldades claras de sinalizar um comportamento efetivamente capaz de sugerir um reconhecimento dos erros e uma mudança de rumo que reverta, ainda que gradualmente, a desconfiança do mercado, agora também do consumidor.

O grande problema é que a rearrumação da economia passa necessariamente por medidas de ajuste antagônicas ao projeto de reeleição que orienta as ações do governo. A essa dificuldade, soma-se agora a pressão pela qualidade dos serviços – e, em alguns casos, mesmo a simples prestação do serviço, considerando que muitos não são entregues.

É a conta de uma década e meia de predominância do marketing para além das campanhas vitoriosas. O PT descobre agora que o marketing é uma ciência para dar visibilidade a realizações e não para simulá-las. Por isso é eficiente na campanha, mas um dia iria desmoronar como condutor de governo.

O melhor para a presidente Dilma, agora, seria escolher um dos setores de maior descontentamento – o de Transportes, por exemplo, fator do mau humor diário do contribuinte, e adotar medidas concretas, pouco a pouco, de forma que possa anunciá-las dentro de um cronograma.

Coisa séria, objetiva, construída por especialistas, em caráter emergencial. Os demais focos de reclamação seriam igualmente contemplados, mas em médio e longo prazos. Casos da reforma política e tributária, necessariamente morosas, mesmo quando para ambas houver a chamada vontade política.

Mudanças com poder de convencimento do mercado, no caso da economia, só mesmo se for para valer. Mudança de nomes, comandos, ou um conselho capaz de influir diretamente no processo, poderiam surtir algum efeito, se acompanhadas de medidas comprometidas com os fundamentos do Real , como a Lei de Responsabilidade Fiscal e as metas de inflação, ambos flexibilizados com o estímulo da própria presidente.

O cenário hoje é bastante desfavorável e de difícil reversão para a presidente. Com a campanha eleitoral antecipada pelo próprio governo, coisas da autofagia própria do PT, os prazos são mais curtos ainda. É muita coisa para arrumar em meio ano, o que é agravado pela expectativa negativa que produz.

A sucessão, até semanas atrás  indiscutivelmente ganha, agora está zerada. O segundo turno, há dias uma convicção nova, já envelheceu como análise, abrindo espaço para a tese de perda do favoritismo presidencial.

Não é um contexto fácil. Especialmente para quem operou até aqui acirrando o desgaste do Legislativo para dele depender o mínimo necessário – só o que sua alta aprovação, agora em queda,  não permitisse.

Aumenta o queremismo nas hostes do PT em torno do ex-presidente Lula, o que a torna mais dependente de PMDB e do PSD, movimento que implica mais concessões políticas.

É uma hora que impõe ruptura com um modelo que não se aposta como possível para Dilma.