Receita protela desfecho da investigação para após as eleições

Receita protela desfecho da investigação para após as eleições

João Bosco Rabello

01 de setembro de 2010 | 15h51

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Cartaxo, cozinhando em banho-maria. Foto: André Dusek/AE

Assim como o Supremo Tribunal Federal faz com a Ficha Limpa, a Receita empurra o desfecho das investigações sobre a quebra de sigilos de tucanos para após as eleições.

A estratégia da protelação é nítida. Começa na despolitização do episódio, a cada dia mais difícil de sustentar, passa pelas versões desencontradas sobre as participações de servidores (as) no delito, e acaba no recurso à Justiça para reverter a decisão que garantiu a uma das vítimas, Eduardo Jorge, acesso às investigações.

Recorre depois de descumprir parcialmente a ordem judicial sonegando ao vice-presidente do PSDB 13 volumes da investigação. A negação dos deveres é sinal dos tempos: juízes protelam decisões e a Receita sonega informações.

Governo e PT agem como se não devessem satisfações em relação ao episódio. Vejamos: a Receita é órgão do Poder Executivo, subordinado ao Ministério da Fazenda. Portanto, é governo, nesse momento exercido pelo PT que, em nome da continuidade, lançou a candidata Dilma Rousseff à sucessão do presidente Lula.

No comitê da candidata uma empresa contratada para comandar a área de comunicação da campanha foi flagrada com as informações vazadas da Receita, no contexto de elaboração de um dossiê contra o principal adversário do PT, o ex-governador de São Paulo, José Serra, candidato pelo PSDB.

Numa admissão do fato, o PT afastou da campanha a empresa (pelo menos para efeito público) e a candidata repeliu as acusações de envolvimento no episódio. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, chegou a considerar “canalhice” a cobrança de explicações pelo adversário.

O crédito que, a rigor, se deve dar a quem se afirma distante de um delito, fica comprometido pelo tom de uma indignação superlativa, uma postura não de resposta, mas de ataque, quando seria mais simples dizer que desconhecia a trama, tomou as providências devidas e condena a atitude.

Já a candidata diz não ter nada a ver com a Receita e reage à cobrança do PSDB resgatando episódios anteriores, como o dos grampos do BNDES, da escuta no Palácio do Planalto, entre outros, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, sem se dar conta de que sendo vítima em todos eles, o PSDB fica legitimado na sua cobrança por explicações – tanto ao governo quanto ao partido que o representa nas eleições.

Nada reflete melhor a cultura do homem público brasileiro de achar-se acima do bem e do mal do que este momento. Não há no país a cultura da prestação de contas, o que engessa os debates de campanha dando  a qualquer crítica mais direta ou cobrança de comportamento a classificação de falta de civilidade.

Noutra ponta, o espírito de intolerância à crítica, à denúncia e à cobrança, produz reações e propostas autoritárias na direção do cerceamento da informação, ameaçando um dos princípios mais caros à democracia, que é a liberdade de expressão.

Com as novas revelações de mais sigilos de tucanos violados, a tese de que fazem parte das encomendas do comércio clandestino de venda de cadastros de pessoas físicas e jurídicas vai se tornando, mais que vulnerável, ridícula.

Seria admitir que ao mercado só interessam sigilos de tucanos, inferiorizados na disputa, segundo as pesquisas, no avesso da lógica pela qual valeriam mais as informações comprometedoras de quem está à frente.

Além disso, esse tipo de informação não tem outra serventia senão a de viabilizar a montagem de dossiês. Portanto, governo e PT, o primeiro exercido pelo segundo, devem, sim,  explicações publicas sobre a quebra e vazamento dos sigilos.

A credibilidade das afirmações de desconhecimento das operações criminosas será tão maior quanto a demonstração de interesse em desvendá-las, nominando os responsáveis e os “clientes” que fizeram a encomenda.

Fora disso, é alimentar a desconfiança e legitimar as acusações adversárias, repelidas com veemência proporcional à desídia com que tratam episódio de tamanha gravidade.

Volto ao assunto.

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