Rebaixamento é nota pelo conjunto da obra na economia

João Bosco Rabello

26 Março 2014 | 13h13

Não houve surpresa no mercado com o rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência Standard & Poors – e, a rigor, nem para o governo, que se decepcionou apenas com a velocidade da decisão. Desejava-a para após as eleições, já que inevitável.

A decisão da agência foi uma confirmação, o que explica a reação de aparente indiferença registrada pela leve subida da bolsa no mesmo dia do anúncio. O resultado já estava precificado, como se diz no jargão do mercado.

A nota da agência reflete a avaliação já corrente há muito tempo no mercado e resulta do conjunto da obra do governo Dilma no campo econômico, onde se destaca negativamente a gestão intervencionista, gene das manobras que produzem um passivo fiscal a ser escondido do eleitor até 2015.

No setor energético, esse novelo fica mais explícito com as distribuidoras de energia sobrevivendo com a ajuda do Tesouro, depois de submetidas aos efeitos da condução populista que reduziu as contas de luz à revelia da ordem comercial.

O represamento do aumento da gasolina, com prejuízo bilionário para a Petrobrás, agora duplamente sacrificada com os indícios de corrupção em operações comerciais de compra de refinarias, também é um sintoma de uma governança indiferente à realidade econômica.

O governo apressou-se em tentar evitar o rebaixamento – e a ida da presidente Dilma ao Forum de Davos, Meca do capitalismo mundial, já revelava essa tentativa tardia de consertar os erros com discursos e promessas.

Descobriu logo que plateias especializadas e eleitorado se conduzem por estímulos diferentes – a primeira impermeável a cantos de sereia; a segunda, presa fácil do ilusionismo político. Uma, pragmática, opera com  resultados que projetem perspectivas; outra, sensível ao bem estar presente,  não trabalha com o futuro, nem o imediato.

O conjunto da obra, portanto, indica que o governo consolidou a perda da confiança, o principal ativo econômico de qualquer gestão. Vírus que se estendeu ao campo político e produziu a crise com o Legislativo, com origem em sua própria base de sustentação.

As reações de irritação de seus integrantes, do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, revelam antes de tudo que o golpe representado pelo rebaixamento não é reversível no curto prazo eleitoral.

Pior, projeta a preservação do atual quadro de estagnação dos investimentos no país, porque o diagnóstico da agência acusa exatamente o risco para os atores desse processo. E esse aspecto é extensivo ao próximo governo, se for o mesmo de agora, lograda a reeleição da presidente Dilma como ainda registram as pesquisas do momento.

Como acreditar que o governo de agora, com esse passivo acumulado, com nota baixa e conduta errática reincidente, será diferente daqui a nove meses? Do ponto de vista do investidor não há razão para tal, a permanecer o método da negação adotado até aqui – e reafirmado na reação à nota crítica da agência.

Setores do governo chegaram a associar o rebaixamento a uma articulação maquiavélica do candidato presidencial do PSDB, Aécio Neves (MG), com setores do mercado internacional, para criar um fato político negativo que o favoreça na campanha.

Só a segunda parte do raciocínio faz algum sentido – o de que a oposição se beneficia politicamente do revés do governo no campo econômico, que já afirmava internamente, e agora recebe aval de agência especializada.  A primeira é puro delírio.

Agências como a Standard & Poors não são infalíveis, como demonstraram os erros de avaliação cometidos na fase preliminar da crise norte-americana, que levou à falência o banco Lehman Brothers.

Por isso, talvez, a nota crítica ao Brasil não tivesse maior repercussão, se não viesse confirmar as avaliações internas do próprio mercado brasileiro, a retração dos investidores – enfim, se não houvesse um cenário que a confirmasse antecipadamente.

O governo tem se mostrado autoritário e arrogante e só se dispõe à negociação quando não há outra porta de saída, como ficou claro com o acordo que levou á aprovação do Marco Civil da Internet ontem à noite.