Queda na aprovação e operação da PF pioram relações de Dilma com base

João Bosco Rabello

11 de agosto de 2011 | 12h08

Pela leitura dos especialistas, a queda do índice de aprovação da presidente Dilma Rousseff guarda mais relação com uma certa percepção de paralisia na gestão de governo do que com os escândalos de corrupção que se sucederam nos dias anteriores às pesquisas.

Faz sentido, até porque a visibilidade da presidente com os fatos nos ministérios dos Transportes e Agricultura (o do Turismo ocorreu após as consultas), foi positiva: ela assumiu o combate às irregularidades o que soma e não subtrai.

Mesmo não vinculada aos episódios a queda nos índices reforça o ânimo de resistência da base aliada ao padrão Dilma de governar e fragiliza mais a presidente no seu enfrentamento do sistema político.

 Não obstante seus índices historicamente serem altíssimos tanto para os padrões nacionais quanto internacionais. Ela tem muito capital ainda, mas já se depara com a materialização das ameaças de sua base de sustentação.

A formação do bloco de 201 deputados de PMDB, PR, PTB e PP para efeito específico de obstrução da pauta da Câmara é, por ora, resultado do não preenchimento de cargos do segundo escalão e do represamento das verbas de emendas parlamentares do exercício anterior e do atual.

Mas pode evoluir para mais que isso a partir da operação da Polícia Federal no ministério do Turismo. Não pelo mérito da investigação e do cerco à quadrilha que desviava dinheiro público, mas pela forma, que indiscutivelmente ficou comprometida por uma motivação ainda pouco clara da PF.

A súmula do Supremo Tribunal Federal (STF) é clara quanto ao uso de algemas em operações policiais e não o restringe com base em critérios sociais, de renda, cor, sexo ou qualquer outro. O STF estabelece que o uso de algemas deve ser exclusivamente associado à periculosidade do detido, use ele terno ou bermuda, represente este ou aquele segmento, esteja no morro ou no palácio.

A insubordinação policial à regra fica clara no episódio pelas declarações não só do diretor-geral da PF, Leandro Daiello, que deu interpretação pessoal à súmula ao dizer que o uso das algemas teve o objetivo de “dar segurança ao conduzido”.

Esse tipo de comportamento conspira contra a credibilidade da PF. Abre espaço à exploração política e multiplica o discurso populista do qual a atual direção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) parece refém.

São declarações oportunistas que pregam igualdade no uso das algemas para ricos e pobres como se a questão fosse essa. Uma autoridade do primeiro escalão de um governo, detida numa sala de aeroporto, sem oferecer resistência, não representa risco à integridade física de ninguém.

Basta conduzi-la ao carro e levá-la. Já um traficante em perseguição num morro ou em qualquer outro lugar, que oferece resistência armado, é risco grande para a comunidade. Uma vez preso, é natural que seja algemado e escoltado até a prisão. Um é elite e o outro povo. Devia-se, então, pela lógica da OAB, algemar o executivo e ser cordial com o traficante.

O ex-deputado Colbert Martins , além de algemado, foi fotografado para as primeiras páginas dos jornais baianos, seu domicílio eleitoral, o que elevou do grau de insatisfação para o da revolta o clima no PMDB. Ainda mais porque o responsável pelo ministério à época das fraudes era o PT.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sai mal do episódio, questionado pela presidente da República e pela base política quanto ao efetivo controle hierárquico sobre a Polícia Federal.

Seu desgaste não se deve à falta de aviso quanto a uma operação policial em curso, mas por ele próprio não estar informado sobre ela. A ponto de não fazer as recomendações de praxe quanto aos excessos que, afinal, aconteceram.

Só agora, depois de cobrado, Cardozo redigiu uma burocrática cobrança à PF que respondeu com outro ofício burocrático. Como quase metade dos detidos já foi solta por ordem judicial, fica claro que a operação foi marcada por uma ostensividade não justificável.

 

 

 

 

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