PT tangencia temas que terão importância objetiva nos debates

PT tangencia temas que terão importância objetiva nos debates

João Bosco Rabello

29 Julho 2010 | 12h59

Como estratégia de campanha, compreende-se a reação evasiva do PT às acusações de ligação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e de tolerância com o Movimento dos Sem Terra.

Mas vinculá-las a uma tentativa do adversário de atemorizar o eleitorado, para resgatar o bordão da esperança vencendo o medo, vitorioso na primeira eleição de Lula, é apenas uma forma conveniente de tangenciar o conteúdo da crítica.

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Indio e Dutra: campanha acirrada. Fotos: Hélvio Romero/AE – 26.07.2010 e Dida Sampaio/AE – 05.05.2010

A questão da ligação ideológica com as Farc se insere no capítulo da política externa de um governo à qual pertenceu a candidata Dilma Rousseff e do qual se apresenta como a continuidade. Nada mais natural que seja cobrada em questões afins a esse governo, até porque seu principal cabo eleitoral é o presidente da República.

O conflito renovado agora entre Colômbia e Venezuela, cujo pivô são as Farc, é a comprovação factual da oportunidade do tema no debate eleitoral. O Brasil se oferece como mediador desautorizado pela resistência em reconhecer a condição criminosa do movimento.

A maior inserção internacional do Brasil, durante o primeiro mandato de Lula, foi um capital diplomático desperdiçado pelos equívocos de uma política externa que não impôs uma liderança regional e acabou ridicularizada no contexto global, depois do fracassado acordo com o Irã.

Mas não somente. A recente abordagem do tema pelo historiador Jorge Castañeda, em visita ao Brasil, lista os insucessos dessa política externa. Diz ele:

“ O Brasil tratou de obter um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, não o obteve. Tratou de priorizar a Rodada Doha e não conseguiu nada. Tratou de ser um ator central para que se lograsse um acordo em Copenhague e não só não o alcançou como  em parte foi responsável para que isso não acontecesse.

Tratou de se apresentar como protagonista num acordo nuclear com o Irã, mas sua mediação foi rechaçada pelo mundo inteiro, exceto pela Turquia e pelo próprio Irã. Mas creio que mais importante é o fato de que Lula se absteve de mediar ou resolver conflitos que estão mais perto do Brasil. E há tantos. Os de Uruguai e Argentina, de Colômbia e Venezuela, de Peru e Chile, de Colômbia e Nicarágua, de Chile e Bolívia e o de Equador e Peru.

Conflitos próximos abundam, e o Brasil não exerceu nenhuma liderança em nenhum desses casos. Tampouco se apresentou para ajudar em problemas internos. Tampouco se apresentou para ajudar em problemas internos de outros países da América Latina. Salvo parcialmente no caso da Bolívia, e isso o fez para defender os interesses da Petrobras. Suas aspirações de potência mundial fracassaram, e ele não mostrou interesse de atuar como legítima potência regional.

Lula faz um governo muito bom internamente, mas coleciona fracassos e erros no âmbito externo. Tampouco se apresentou para ajudar em problemas internos de outros países da América Latina. Salvo parcialmente no caso da Bolívia, e isso o fez para defender os interesses da Petrobras.

Suas aspirações de potência mundial fracassaram, e ele não mostrou interesse de atuar como legítima potência regional. Lula faz um governo muito bom internamente, mas coleciona fracassos e erros no âmbito externo”.

Como se vê, o conteúdo das criticas do PSDB encontra sentido quando transposto para o contexto da política externa , da qual as Farc fazem parte. Num debate, tangenciá-lo não será estratégico como pode estar sendo nos discursos de campanha que se caracterizam pelo bate-boca através da mídia.

Da mesma forma, a tolerância do governo com os excessos do MST está refletida nas declarações do líder do movimento, João Pedro Stédile, de que num eventual governo Dilma, as invasões aumentarão. Serra tratou de explorar previsões de uma liderança do movimento que se declara aliado do governo.

De fato, as invasões diminuíram, mas se comparados os números do próprio período do governo Lula. Em relação ao governo anterior, aumentaram. São temas de importância concreta que o candidato do PSDB traz para o debate e que em nada desqualificam a campanha ou a tornam incivilizada, como reclama a candidata do PT/PMDB.

No esforço de desqualificar o mensageiro, no caso o PSDB, para fugir ao conteúdo, o PT está produzindo declarações que, estas, sim, contribuem para abaixar o nível da campanha. Quando reage chamando o candidato adversário de “troglodita” por trazer tais conteúdos para a campanha ou ao fazer trocadilho com o nome de seu vice, Índio da Costa, revelando um preconceito com a etnia indígena, como fez o presidente do PT, José Eduardo Dutra, ao classificar suas declarações como “coisa de índio”.